Por Fernando Akio Mariya
O debate sobre fatores de risco psicossociais no trabalho ganhou centralidade nos últimos meses, impulsionado pela atualização da NR-1 e pela crescente preocupação das organizações com saúde mental, presenteísmo e sustentabilidade do trabalho. Ao mesmo tempo, esse movimento evidenciou uma lacuna relevante: embora o tema esteja em pauta, ainda persistem dúvidas técnicas sobre como avaliar esses fatores de forma correta, com método científico, limites bem definidos e segurança jurídica.
Com o objetivo de contribuir para o esclarecimento desse cenário e apoiar os profissionais que atuam na gestão de Segurança e Saúde no Trabalho, será realizada no dia 12 de fevereiro, às 14h, uma live técnica no canal do YouTube da RSData, com a participação do Dr. Fernando Akio Mariya, diretor médico para a América Latina da Procter & Gamble. O encontro terá como tema “Além do Questionário: a metodologia científica JSS+ERI na gestão de fatores de risco psicossociais” e será dedicado à explicação dos fundamentos, da aplicação prática e dos limites metodológicos dessas abordagens.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 01 (NR-1) consolidou a obrigatoriedade de identificar, avaliar e gerenciar os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no âmbito do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Apesar do avanço normativo, ainda é frequente a adoção de abordagens genéricas, pouco estruturadas ou baseadas apenas em percepções subjetivas, o que pode comprometer a efetividade da gestão e gerar insegurança técnica e jurídica.
A gestão dos riscos psicossociais não se confunde com avaliação clínica individual, nem com pesquisas de clima organizacional. Trata-se da análise sistemática de como a organização do trabalho, suas exigências, formas de controle, relações sociais, reconhecimento e recompensas pode gerar exposições capazes de impactar a saúde, a segurança e o desempenho dos trabalhadores. Nesse contexto, o uso de metodologias científicas validadas é elemento central para transformar dados em informação útil à prevenção, à tomada de decisão e à melhoria contínua das condições de trabalho.
Fundamentos metodológicos da abordagem JSS e ERI
Entre os modelos mais consolidados internacionalmente para a avaliação de fatores psicossociais relacionados ao trabalho destacam-se o modelo Demanda–Controle–Apoio Social, de Karasek e Theorell, e o modelo Desequilíbrio Esforço–Recompensa, de Siegrist. No contexto brasileiro, esses modelos são amplamente aplicados por meio de instrumentos validados, como a Job Stress Scale (JSS) e o Effort–Reward Imbalance (ERI).
O modelo Demanda–Controle–Apoio Social parte do pressuposto de que o risco à saúde se intensifica quando altas exigências psicológicas coexistem com baixo grau de autonomia para decidir como o trabalho é executado, especialmente quando há insuficiente apoio social de colegas e lideranças. Seu foco está no modo como o trabalho é organizado, permitindo identificar situações de alto desgaste ocupacional.
Já o modelo Desequilíbrio Esforço–Recompensa avalia a relação de reciprocidade existente no contrato social do trabalho. O risco psicossocial emerge quando o esforço despendido não é compensado de forma adequada por recompensas como reconhecimento, estabilidade, remuneração e perspectivas de desenvolvimento. O modelo também considera o componente de excesso de comprometimento, que aumenta a vulnerabilidade ao estresse crônico.
A utilização combinada dessas duas abordagens oferece uma visão mais abrangente dos fatores psicossociais, permitindo analisar tanto as exigências estruturais do trabalho quanto a percepção de justiça e reconhecimento organizacional.
Aplicação prática e aprendizado organizacional
A experiência acumulada ao longo de mais de uma década na implementação de programas estruturados de avaliação e gestão de riscos psicossociais em grandes organizações demonstra que a mensuração sistemática desses fatores produz resultados mais consistentes quando integrada a processos decisórios e ações concretas de intervenção.
Segundo o médico do trabalho Fernando Akio Mariya, Diretor Médico para a América Latina da Procter & Gamble, a aplicação correta dessas metodologias exige clareza conceitual e responsabilidade técnica.
“A ideia é explicar a lógica por trás dos instrumentos, o que exatamente eles medem, como interpretar seus resultados e, principalmente, quais são os limites e cuidados metodológicos no uso desses dados para subsidiar diagnósticos e decisões nas organizações”, afirma o especialista.
Esse tipo de abordagem contribui para retirar o tema do campo da subjetividade e inseri-lo em uma lógica de gestão baseada em evidências, permitindo correlacionar fatores psicossociais com indicadores como presenteísmo, absenteísmo e afastamentos, além de acompanhar os efeitos de intervenções organizacionais ao longo do tempo.
O papel da liderança e do apoio à gestão – NR-1
Outro ponto central evidenciado pela aplicação prática dessas metodologias é o papel da liderança. Fatores como autonomia, reconhecimento, segurança psicológica, clareza de prioridades e qualidade das relações interpessoais estão diretamente associados aos modelos de Karasek e Siegrist e dependem, em grande medida, das decisões gerenciais.
A gestão eficaz dos riscos psicossociais exige articulação entre Segurança e Saúde no Trabalho, Medicina do Trabalho, Recursos Humanos e liderança, com base em dados confiáveis e interpretação técnica adequada. Nesse cenário, recursos tecnológicos especializados podem atuar como apoio à gestão, viabilizando a coleta estruturada de dados com sigilo e anonimato, a consolidação de indicadores por áreas e a integração das informações ao PGR.
Plataformas como as desenvolvidas pela RSData ilustram como a tecnologia pode apoiar a aplicação prática dessas metodologias, sem substituir o método ou o julgamento técnico, mas facilitando sua operacionalização no cotidiano das organizações.
Considerações finais
A inclusão dos fatores de risco psicossociais na NR-01 representa um avanço relevante, mas sua efetividade depende da forma como as organizações interpretam e operacionalizam essa exigência. Medir é fundamental, mas agir com consistência é indispensável.
Modelos científicos consolidados, como os de Karasek e Siegrist, permanecem plenamente atuais e se mostram essenciais para qualquer organização comprometida com a saúde dos trabalhadores, a conformidade legal e a sustentabilidade de longo prazo.
Nota editorial
Como aprofundamento técnico desse debate, será realizada no dia 12 de fevereiro, às 14h, uma live no canal do YouTube da RSData, com a participação do Dr. Fernando Akio Mariya, dedicada aos fundamentos, à aplicação prática e aos limites metodológicos da abordagem JSS+ERI.
Para acessar a live na íntegra acesse o link:
https://rsdata.short.gy/cpsico-jsseri

Foto: Arquivo do autor
Fernando Akio Mariya
É médico graduado pela Universidade Federal de São Paulo, pós-graduado em Medicina do Trabalho pela Universidade de São Paulo e especialista pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho. Atua como coordenador de cursos de pós-graduação em Medicina do Trabalho e Gestão de Saúde Corporativa e exerce a função de Diretor Médico para a América Latina da Procter & Gamble.




