Por Alessandro Nascimento
Doze de agosto é o Dia Nacional das Artes. Quem trafegava de madrugada pela BR-381, no km 489, situado no município de Betim, em Minas Gerais, presenciou um episódio de pirotecnia, a arte que faz uso de substâncias químicas para produção de efeitos com fogo. Contudo, no lugar de palmas e admiração, o episódio rendeu medo e correria. Um incêndio de grandes proporções atingiu o pátio de uma empresa de gás, atingindo duas carretas bitrem e um caminhão, todos munidos com Gás Natural Veicular (GNV) e conectados a uma central de carregamento.
À época, testemunhas disseram ter ouvido um forte ruído de vazamento de gás pressurizado pouco antes do início das chamas, que vieram acompanhadas de disparos provocados pelos cilindros estourados. Para evitar as consequências de uma explosão massiva e a consequente onda de choque, a rodovia foi interditada nos dois sentidos com o apoio da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da concessionária. Ao todo, sete viaturas do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) foram mobilizadas para o combate que durou quase duas horas. De acordo com dados preliminares da perícia, que colheu depoimentos de testemunhas, o incidente teria começado durante o abastecimento de um dos veículos.
Independente do tipo, os gases são essenciais para setores como saúde, agroindústria, metalurgia e energia, entre outros. Porém, o manejo inadequado desses insumos pode resultar em incêndios e explosões de grande monta. O engenheiro de petróleo e gás João Silva Cavalcante ressalta que em ambientes onde a pressão interna de um cilindro pode ultrapassar 200 atmosferas (atm), ou seja, quando o gás está comprimido 200 vezes mais do que a pressão normal do ar, qualquer falha de controle, impacto físico ou exposição ao calor pode transformar o recipiente em uma verdadeira bomba. “Por isso, rígidos protocolos de segurança, aliados a rotinas de inspeção e cumprimento das normas técnicas, são indispensáveis para prevenir acidentes e proteger vidas”, salienta.

João Silva Cavalcante,
engenheiro de Petróleo e Gás – Foto: Arquivo pessoal
De acordo com a ABNT NBR 12176:2010 — Cilindros para gases – Identificação do conteúdo, os gases comprimidos armazenados em cilindros metálicos são classificados em inflamáveis, tóxicos, comburentes ou inertes. O texto impõe a cada uma dessas categorias cuidados específicos de transporte e manuseio. Falando especificamente sobre o transporte, a Resolução nº 5.998/2022 da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) obriga o uso de equipamentos adequados de fixação e proteção das válvulas, evitando quedas, choques mecânicos e vibrações que possam comprometer a estrutura do cilindro. Assim, caminhões e carretas precisam contar com sistemas de ventilação natural, sinalização de risco e motoristas capacitados pelo curso de Movimentação Operacional de Produtos Perigosos (MOPP).
Neste aspecto, Cavalcante lembra que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) exigem que os cilindros possuam dispositivos de alívio, conhecidos como fusíveis de segurança, que se rompem antes da explosão total. “Vale lembrar que esses mecanismos só funcionam se o cilindro estiver dentro do prazo de inspeção e em estado estrutural conforme”, adverte.
Outro ponto crítico destacado pelo engenheiro é a mistura acidental de gases, visto que determinadas substâncias, tais como o acetileno e o oxigênio, quando em contato, têm alto potencial explosivo. Por conta disso, o Guia de Compatibilidade Química da ONU é a “bíblia” das empresas do ramo, visto que o documento estabelece as combinações proibidas no transporte rodoviário e marítimo.
Cuidados no manuseio de cilindros
Líder mundial em gases para os setores de indústria e saúde, a francesa Air Liquide baseia a segurança operacional no manuseio de cilindros de gases pressurizados em três momentos: proteção do profissional envolvido, transporte e manutenção e boas práticas durante o uso. Segundo o diretor de Segurança da companhia, Pedro Silva, essas etapas fazem parte de um ciclo contínuo de atenção e de procedimentos rigorosos.
“Em primeiro lugar, a proteção do profissional. Antes de qualquer manuseio, é mandatório o uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) corretos. Isso inclui óculos de segurança, botas com biqueira de aço ou composite e com protetor de metatarso, e luvas de vaqueta ou criogênicas, no caso de gases a baixas temperaturas. Se o gás for inflamável ou oxidante, o uso de roupa antichama também é obrigatório”, detalha.
Já no transporte e na movimentação, Silva afirma que a regra de ouro é que a válvula do cilindro deve estar sempre protegida pela tulipa ou capacete. “Recomendamos o uso de carrinhos apropriados na movimentação de cilindros em clientes ou pacientes para garantir a segurança e a ergonomia. É terminantemente proibido colocar o cilindro sobre o ombro, arrastar o cilindro ou transportá-lo no veículo na posição horizontal.”

Pedro Silva, diretor de Segurança
da Air Liquide – Foto: arquivo pessoal
De acordo com ele, existe outro ponto vital sempre reforçado com a equipe: em caso de queda, não tente segurar o cilindro, apenas afaste-se e deixe-o cair. “Ainda no transporte, os cilindros devem estar bem fixados à carroceria do veículo com cintas de amarração apropriadas. Outro ponto importante é que os veículos que transportam nossos cilindros devem cumprir rigorosamente nossos requisitos de Segurança Viária e com o projeto da carroceria aprovado por nosso Departamento de Engenharia”, salienta.
Por fim, Silva relata que as boas práticas durante o uso do equipamento dão conta que, ao abrir a válvula, o operador deve se posicionar sempre lateralmente, nunca de frente para ela. “É absolutamente proibido o manuseio do cilindro de oxigênio com as mãos ou luvas sujas de óleo, graxa ou desengripantes. Além disso, é essencial utilizar equipamentos adequados, como mangueiras e reguladores de pressão compatíveis com o gás e, sempre que aplicável, usar um dispositivo antirretrocesso de chama”, diz.
O diretor de Segurança ainda detalha que para os cilindros de oxigênio, a válvula deve ser aberta lentamente para evitar o “flash fire”, momento em que as moléculas de O2 se chocam contra uma barreira e podem causar incêndio devido ao calor excessivo. “Ao final do trabalho, a regra é simples: feche completamente a válvula, mesmo que o cilindro esteja vazio, para evitar contaminação interna do cilindro.”
Entre as medidas de prevenção de incêndio, o especialista da Air Liquide destaca ser essencial que o projeto das instalações de produção ou armazenamento de cilindros de gases inflamáveis ou oxidantes sigam os mais altos critérios de engenharia a fim de garantir a implementação das normativas legais brasileiras.
Além disso, Silva diz que outro passo essencial é a segregação rigorosa entre gases inflamáveis e oxidantes, com barreiras físicas como paredes de concreto e áreas dedicadas, isoladas e com controle de acesso para os gases inflamáveis e tóxicos. “Não podemos deixar de fora o controle total de fontes de ignição, o que inclui desde iluminação à prova de explosão até a obrigatoriedade do uso de roupas antichama para os colaboradores que manuseiam esses produtos. Por fim, a proibição absoluta de contato com óleo ou graxa, principalmente em cilindros de oxigênio, o que é um risco crítico”, enumera.
Silva complementa enfatizando que para reduzir os riscos durante a operação, é vital compreender a natureza de cada gás. “Um vazamento de gás inflamável pode criar uma atmosfera explosiva, enquanto um oxidante, como o oxigênio, não queima, mas alimenta violentamente qualquer chama. Já para um gás inerte, o risco é a asfixia, visto que ele desloca o oxigênio do ambiente.”
Em complemento às orientações do diretor, o engenheiro João Silva Cavalcante chama atenção para o armazenamento de gases pressurizados, tarefa que exige planejamento e infraestrutura projetada para minimizar riscos. “As áreas de guarda devem estar distantes de fontes de calor, faíscas ou chama aberta e contar com ventilação natural ou exaustão mecânica eficiente, prevenindo o acúmulo de gases inflamáveis”, cita.
De acordo com a NBR 12235:2014 — Armazenamento de cilindros de gás comprimido, os recipientes devem ser mantidos na posição vertical, presos por correntes ou suportes metálicos, em piso nivelado e sem umidade. O texto da norma também diz que os cilindros vazios e cheios não podem ficar juntos, devendo ser identificados por etiquetas de cor distinta. Quanto aos gases incompatíveis, como oxidantes e combustíveis, a distância mínima é de três metros. Nessa impossibilidade, o espaço deve contar com barreiras corta-fogo de alvenaria com resistência mínima de 30 minutos.
“Nas empresas de médio e grande porte, as salas de cilindros costumam ter sensores automáticos de vazamento e sistemas de alarme, acionando exaustores ou válvulas de contenção. Esses dispositivos reduzem drasticamente o risco de incêndio, desde que corretamente calibrados”, diz Cavalcante.
Cultura de segurança
A despeito do atendimento integral das normas de segurança, o especialista da Air Liquide enxerga na construção e manutenção de uma cultura de segurança forte e consistente o maior desafio do setor. “A tecnologia e os procedimentos são essenciais, mas a segurança real acontece quando cada indivíduo se apropria desta cultura e entende a importância de cada regra. O verdadeiro desafio é manter todos, em todos os níveis, com a mesma percepção de risco e o mesmo compromisso inabalável com a segurança”, relata.
Segundo ele, apenas com altos investimentos em treinamentos contínuos e capacitações para as equipes e os parceiros é possível ter sucesso nessa empreitada. “Um exemplo que praticamos há mais de 10 anos é o nosso ‘Cylinders Day’, realizado geralmente no mês de outubro, quando dedicamos um dia inteiro exclusivamente para aprofundar e reforçar as práticas de segurança no manuseio de cilindros”, conta Silva.
Outro exemplo citado por ele é a “Autoridade de Parar o Trabalho”, programa contínuo de empoderamento dos colaboradores para que parem a atividade, dele ou de qualquer outro ator, sempre que identificarem uma situação de insegurança. “No final das contas, todos os nossos investimentos, normas e treinamentos têm um único objetivo, que é a nossa maior intenção: garantir que, ao final de cada dia de trabalho, todos os nossos colaboradores e parceiros voltem para suas casas em segurança. Esse é o nosso compromisso fundamental”, conclui.
Perigo nos comércios
Basta uma breve pesquisa na internet para notar que acidentes envolvendo cilindros de gases pressurizados é uma realidade que, vez ou outra, acontece em pequenos comércios. No último dia 18 de outubro, por exemplo, uma explosão causou um incêndio em um restaurante localizado em Nova Venécia, no Espírito Santo. Diversos bens materiais, como fogões, micro-ondas e outros eletrodomésticos foram destruídos, mas, por sorte, ninguém se feriu.
Nesses locais, que costumam usar Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), os riscos estão diretamente ligados à pressão interna dos cilindros, à inflamabilidade do gás, ao manuseio inadequado e a instalações fora das normas. “Por ser mais pesado que o ar, em caso de vazamento, o GLP se acumula em locais baixos, como cozinhas, porões ou caixas de contenção, o que acaba criando uma atmosfera altamente explosiva”, destaca João Silva Cavalcante.
Segundo ele, é comum observar em pequenos comércios, como lanchonetes, a existência de mangueiras ressecadas, rachadas ou com prazo vencido; abraçadeiras frouxas ou até mesmo a ausência delas; válvulas danificadas ou mal encaixadas; bem como cilindros amassados, enferrujados ou expostos ao calor; além de instalação incorreta de reguladores de pressão.
A 1ª tenente PM Olívia Perrone, do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo (CBPMESP), conta que já atendeu a uma ocorrência envolvendo gases inflamáveis em uma empresa de doces e salgadinhos industriais que não possuía Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) e nem mesmo as licenças necessárias para funcionamento e fabricação. “O local apresentava uma instalação totalmente improvisada, em ambiente inadequado e sem medidas básicas de proteção contra incêndio. Essa combinação de irregularidades fez com que as mangueiras que conectavam os cilindros de gás aos fornos se rompessem ou fossem danificadas, liberando gases inflamáveis em um ambiente quente e propício à ignição. O resultado foi um grande incêndio que se alastrou rapidamente por toda a fábrica. Felizmente, apesar da gravidade da situação, não houve vítimas”, relata.
Mesmo com a frequência de ocorrências em comércios, os olhos das autoridades seguem no setor industrial por conta da vultuosidade de possíveis acidentes. Assim, o CBPMESP, corporação que atende o estado com o maior parque fabril do país, orienta que as empresas que transportam, armazenam ou manuseiam gases inflamáveis adotem medidas rigorosas de segurança para evitar incêndios, explosões e vazamentos.
“Essas substâncias, amplamente utilizadas em processos industriais de soldagem, calefação, refrigeração e como combustível, apresentam alto potencial de risco, principalmente por sua capacidade de formar misturas explosivas com o ar atmosférico quando ocorrem vazamentos. Por isso, é fundamental que as instalações sejam adequadas, ventiladas e equipadas com dispositivos de contenção e alívio de pressão, evitando o acúmulo de gases em locais baixos, como ralos, porões e galerias”, contextualiza a tenente.

1ª tenente PM Olívia Perrone,
do CBPMESP – Foto: CBPMESP/divulgação
De acordo com ela, vale lembrar que muitas explosões decorrem não da queima do gás em si, mas da ruptura dos recipientes submetidos a calor intenso. “Por isso, manter os cilindros em locais ventilados e protegidos do sol ou de outras fontes de calor é uma medida essencial de prevenção. Outro ponto de destaque é a necessidade de que todas as empresas que utilizam, armazenam ou transportam gases inflamáveis possuam o AVCB atualizado”, orienta.
Segundo a tenente, pela experiência da instituição paulista, os momentos de maior risco nas operações com gases pressurizados inflamáveis ocorrem, principalmente, nas etapas de enchimento e transferência dos insumos, quando há maior possibilidade de vazamento nas válvulas ou conexões. “Mas também há alto risco no transporte, em situações de colisão, tombamento ou exposição dos cilindros ao calor”, adverte.
Foi justamente durante o transporte que uma grande tragédia aconteceu em 11 de setembro deste ano, no México. Um caminhão que transportava quase 50 mil litros de gás explodiu em uma rodovia na capital do país, deixando 19 mortos e dezenas de feridos. De acordo com as investigações da promotoria local, o tanque do veículo apresentou uma ruptura após se chocar em alta velocidade com um objeto sólido, o que permitiu o vazamento de gás e sua combustão. A fumaça provocada pelo incêndio alcançou uma estação de trólebus, um dos principais meios de transporte da metrópole mexicana de 9,2 milhões de habitantes, levando o caos à cidade. As autoridades do país também relataram que o reboque não possuía permissão de operação regularizada.
A tenente do CBPMESP conta que ocorrências desse tipo representam grandes desafios para o Corpo de Bombeiros. “O risco de explosão e a rápida propagação das chamas exigem táticas específicas e extrema cautela durante o combate. Além disso, há o perigo de reincêndio caso o fluxo de gás não seja interrompido completamente, bem como o risco de intoxicação em razão da toxicidade de muitos gases inflamáveis.”
De acordo com a oficial, em ocorrências que envolvam gases pressurizados inflamáveis, a prioridade da corporação é interromper o vazamento, resfriar os recipientes expostos ao fogo e garantir a segurança das equipes e da população. “Quando possível, utiliza-se o jato de água em forma de neblina, que auxilia na dissipação do calor sem neutralizar o agente extintor, técnica considerada a mais eficaz nesses casos”, finaliza.


