Home SST - Saúde Ocupacional Estudo associa mais de um milhão de sinistros às condições de saúde dos motoristas

Estudo associa mais de um milhão de sinistros às condições de saúde dos motoristas

Estudo da Abramet elaborado com dados da PRF reforça a importância da avaliação médica periódica na discussão da MP que altera as regras de renovação da CNH

As condições físicas e emocionais dos condutores voltaram ao centro do debate sobre segurança viária no país. Um estudo inédito da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), elaborado a partir de dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), identificou que mais de 1,2 milhão de sinistros registrados nas rodovias brasileiras entre 2014 e 2024 tiveram como fator associado algum comprometimento físico, mental ou comportamental dos motoristas.

O material será entregue aos senadores responsáveis pela análise da Medida Provisória 1.327/2025, conhecida como “MP do Bom Condutor”. O texto aprovado pela Câmara dos Deputados prevê a renovação automática da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para cidadãos sem infrações registradas nos 12 meses anteriores ao vencimento do documento, mas manteve a obrigatoriedade das avaliações médicas periódicas para renovação da habilitação.

 

Reflexos na saúde dos motoristas

 

De acordo com o estudo, os registros estão associados a fatores como sono, falta de atenção, ausência de reação, mal súbito, transtornos mentais, uso de substâncias, doenças oculares, limitações motoras e alterações neurológicas capazes de comprometer a condução segura de veículos.

Os dados também revelam outro aspecto importante. Enquanto falhas relacionadas à infraestrutura viária, como problemas de sinalização, pavimentação ou geometria das pistas, responderam por cerca de 8% das ocorrências, os fatores ligados às condições de saúde aparecem de forma recorrente ao longo de toda a série histórica analisada.

Minas Gerais lidera o ranking nacional de registros relacionados a fatores clínicos dos condutores, com 154.648 ocorrências. Na sequência aparecem Paraná (134.358), Santa Catarina (120.665), Rio Grande do Sul (95.059) e São Paulo (84.250). Entre os estados com menor número de casos estão Acre (4.219), Amazonas (2.896) e Amapá (2.681).

Para o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), que reúne mais de 5 mil profissionais especializados no transporte de veículos zero quilômetro em todo o país, os dados reforçam a necessidade de ampliar o cuidado com o bem-estar físico e mental dos trabalhadores que passam boa parte da vida percorrendo as estradas brasileiras.

“Quando um motorista adoece, o risco não fica dentro da cabine. Ele passa a circular pela rodovia junto com o veículo. Os números mostram que a segurança no trânsito não depende apenas de asfalto de qualidade, sinalização adequada ou fiscalização eficiente. Ela também passa pela saúde física e emocional de quem está conduzindo milhares de quilos pelas estradas do país”, afirma o presidente do Sinaceg, José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho.

O dirigente ressalta que o debate sobre prevenção de sinistros precisa considerar não apenas as condições dos veículos e da infraestrutura, mas também a capacidade dos profissionais de manterem níveis adequados de atenção e desempenho durante a jornada.

“O caminhoneiro aprende a enfrentar chuva, neblina, trânsito pesado e estradas em condições difíceis. O problema é que existe um inimigo muito mais silencioso: o desgaste acumulado. Cansaço, estresse e até problemas de saúde ainda não diagnosticados podem reduzir a atenção e os reflexos sem que o próprio profissional perceba. É nesse ponto que muitos riscos começam a surgir”, afirma o diretor regional do Sinaceg, Márcio Galdino.

Para a entidade, o estudo evidencia o papel das avaliações periódicas na identificação precoce de condições que podem comprometer o desempenho ao volante, contribuindo para reduzir riscos e preservar vidas.

Em um país onde o transporte rodoviário responde pela maior parte da movimentação de cargas, a discussão sobre a aptidão dos profissionais do setor ganha cada vez mais importância, não apenas para quem trabalha diariamente nas estradas, mas para todos os usuários que compartilham a malha viária brasileira.

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