Se você pensava que quem atua em atividades consideradas mais braçais, como no chão de fábrica, está mais sujeito a exposição ao estresse, se engana: segundo uma pesquisa da consultoria Aventus Saúde Ocupacional, com 245 empresas da Região Metropolitana de Campinas (SP), trabalhadores da indústria apresentam melhores índices de saúde mental superando quem está em escritórios, hospitais e comércio.
Replicado pelo ABCdoABC, o levantamento usou como indicadores sete critérios baseados no método britânico HSE-IT (Health and Safety Executive Indicator Tool), validado no Brasil pelo Prof. Dr. Sérgio Roberto de Lucca (Unicamp). São eles: a demanda de trabalho; controle das tarefas; apoio das chefias; apoio de colegas; relacionamentos no ambiente laboral; cargo (clareza de funções); e comunicação e mudanças na gestão das tarefas.
As indústrias se saíram melhor por ter uma estrutura organizacional mais fundamentada, sugerindo que a clareza de processos proporciona uma espécie de “escudo” para a saúde mental. Já nas atividades em que é preciso sanar muitas tarefas ao mesmo tempo, como no setor de serviços, sem uma previsibilidade de funções, o adoecimento mental é mais crítico.
“O domínio ‘Cargo’ foi o ponto que chamou mais a atenção. Um cargo confuso, mal estruturado ou distorcido é um fator de risco psicossocial direto, pois impacta na motivação, no senso de propósito e na estabilidade emocional do trabalhador”, comenta Dr. Marco Aurélio Bussacarini, fundador da Aventus e um dos responsáveis do estudo.
Em números, o setor de Transportes (17% das empresas pesquisadas) encabeça os impactos de estresse na saúde mental, por conta do isolamento e alta pressão por cumprimento de trajetos; seguido do Comércio (19%), com destaque para a jornada 6×1 e a exigência de bater metas. Já no de Serviços (50%, escritórios e áreas administrativas), a saúde mental é prejudicada pela ambiguidade funcional.
Saúde mental exige urgência nas mudanças
Outra pesquisa descortina a urgência em tirar do discurso o tema da saúde mental e colocá-lo em prática: segundo dados do Observatório Digital de Saúde e Segurança (SmartLab) do Ministério Público do Trabalho, houve um aumento de 143% nos afastamentos por transtornos mentais em 2025, com a administração pública (14,9%), os bancos (14,8%) e o atendimento hospitalar (8,9%) mais afetados e as mulheres representando 64% dessas notificações.
Para Bruno Chapadeiro Ribeiro, psicólogo sanitarista e social do trabalho e colunista do Outras Palavras, essa tomada de decisão vai além do cumprimento da Norma Regulamentadora 1 (NR-1). “A NR-1 determina que as empresas identifiquem e avaliem riscos psicossociais como metas excessivas, jornadas extensas, ausência de suporte, assédio moral, conflitos interpessoais e falta de autonomia no trabalho”, explica o articulista.
Ribeiro afirma que a saúde mental é uma luta real e urgente, que envolve uma transformação estrutural e não mudança de mindset somente: “Parece simples até lembrarmos que isso exige revisar processos, reduzir metas, reconhecer limites humanos”, arremata o profissional.
Para piorar, segundo um levantamento da plataforma de benefícios Flash, apenas 5% dos departamentos de Recursos Humanos (RHs) brasileiros ouvidos afirmaram que suas organizações estão totalmente preparadas para as novas implementações da NR-1, com estimativa de valer a partir de maio deste ano.
Grazi Piva, especialista em desenvolvimento organizacional, ao blog da Flash, salienta que falar de saúde mental não deve se restringir a campanhas, como o Janeiro Branco (confira nosso conteúdo especial aqui), mas em fazer uma avaliação de tais riscos o ano todo. “Isso não se sustenta com ações de conscientização. É necessário um ajuste de desenho do trabalho, liderança, rotina de gestão e governança”, defende.




