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Mineração avança com inovação, mas desafios históricos persistem

Da mineração colonial à era ESG, o setor evolui com inovação e tecnologia, mas acidentes e desafios à segurança ainda marcam o trabalho nas minas

Por Luciana Sampaio Moreira

 

Do início da exploração aurífera e de pedras preciosas, no final do século XVII (anos 1600), até os dias atuais, a mineração brasileira cresceu e evoluiu muito. Atualmente são cerca de 3,35 mil empresas, sendo 159 de transnacionais, multinacionais e grandes conglomerados empresariais e a maioria de médias,p equenas e microorganizações. Juntas no mesmo setor, experimentam realidades organizacionais absolutamente distintas.

O portfólio nacional tem jazidas de 70 minerais metálicos, não metálicos e energéticos em exploração em Minas Gerais, Pará e São Paulo e plantas em expansão para Goiás, Mato Grosso e Bahia. Em empregos, são mais de 223 mil diretos e o faturamento, em 2024, chegou a R$ 270 bilhões.

A importância geopolítica e econômica do setor, o anúncio da transição energética, a necessidadede intensificar a exploração das terras raras e dos minerais críticos e a proposta coletiva de descarbonização da cadeia produtiva estão entre as oportunidades do momento. Por outro lado, sobram cobranças de investidores, governo e sociedade para melhorias ambientais, sociais e de governança.

Como resposta, os grandes players protagonizam um necessário e urgente processo de mudança cultural. Entre as medidas adotadas estão executivos jovens em posições estratégicas, liderança responsável com equipes, incentivo à cocriação de soluções coletivas/setoriais que envolvam os trabalhadores e, ainda, uso de soluções inovadoras e tecnológicas para otimizar processos e os níveis de segurança nas operações.

Em sua participação na terceira edição do Mining Innovation Summit 2025, evento do Mining Hub, realizado em Belo Horizonte, nos dias 9 e 10 de junho, a presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Mineração e CEO da AngloAmerican, Ana Sanches, reafirmou a expectativa do setor em torno da inovação, para uma mineração mais responsável, sustentável e que tais atributos sejam percebidos pela sociedade. “A inovação é essencial porque nos estimula a fazer diferente e melhor do que tem feito até aqui. Todos entendemos a essencialidade da mineração para a vida como ela é hoje e ainda mais no futuro”, explicou.

 

Acidentes e mortes

Com tantos e tamanhos avanços, o setor ainda amarga um gargalo histórico para a atividade: Segurança e Saúde no Trabalho. Segundo a coordenadora de Processos de Segurança na Mineração do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Patrícia Moreira, a mortalidade causada por acidentes de trabalho teve melhora considerável ao logo dos anos, mas ainda está acima da média nacional. Atualmente, a instituição representa 293 empresas.

Dados da Previdência Social, com base na Classificação Nacional das Atividades Econômicas (CNAE), dão uma dimensão prévia do problema. Entre 2006 e 2023 foram 4.380 ocorrências de acidentes de trabalho na exploração de carvão mineral. A produção de minério de ferro rendeu 14.586 casos. A de alumínio, 1.218. A extração de pedras preciosas vitimou 6.352 trabalhadores e, para trazer os números para mais perto da população, a exploração de pedras, areia e argila – insumos fundamentais para a construção civil – deixou 26.124 pessoas feridas no mesmo intervalo.

“Para incentivar a adoção de ações estruturantes de SST voltadas para a redução sustentável e progressiva de fatalidades no setor mineral brasileiro, o IBRAM, alinhado com o movimento ESG (boas práticas em meio ambiente, responsabilidade social e governança) vem promovendo uma série de atividades que visam o fortalecimento da cultura de SST e melhoria das condições de trabalho, por meio de comitês compostos por profissionais das mineradoras associadas”, informa.

Esse projeto inclui a integração do gerenciamento de riscos ocupacionais aos planejamentos estratégico, tático e operacional da empresa; melhoria das avaliações de risco; gerenciamento de contratadas, especialmente aquelas que desempenham atividades críticas; controle e monitoramento de barragens e estruturas geotécnicas; disponibilidade de profissionais capacitados, em todos os níveis; maior participação dos trabalhadores no gerenciamento de riscos ocupacionais; gestão de mudanças; melhoria das análises de acidentes e incidentes e efetivação plena das lições aprendidas em acidentes e incidentes nos processos operacionais.

 

Fatores de risco

Se há uma coisa que nunca mudou na mineração é o seu grau de risco máximo (Grau 4). O diretor científico da Sociedade Paraense de Medicina do Trabalho (entidade federada da Associação Nacional de Medicina do Trabalho – ANAMT), médico do Trabalho e médico perito José Cincurá Siqueira Santos ressalta que a atividade coleciona fatores de risco físicos, químicos, biológicos, ergonômicos, psicossociais e de adoecimento.

José Cincurá Siqueira Santos, diretor científico da Sociedade Paraense de Medicina do Trabalho, médico do Trabalho e médico perito (Foto: Arquivo pessoal)

Entre os físicos estão ruído excessivo, vibrações, contato com temperaturas extremas e com radiações, pressões anormais como câmaras pressurizadas usadas em ambientes subterrâneos, iluminação deficiente que afeta a visibilidade e aumenta o risco de acidentes.

A lista dos riscos químicos inclui poeiras mineiras como a sílica que pode causar silicosa, gases tóxicos como monóxido de carbono (CO), dióxido de enxofre (SO2) metano (CH4), contato com produtos químicos usados no beneficiamento do mineral, contaminação de água e o solo um problema que também afeta as comunidades.

Os riscos biológicos incluem contato com animais peçonhentos como escorpiões, serpentes e aranhas em ambientes naturais, fungos, bactérias e vírus em ambientes confinados e/ou contaminados, ocorrência de doenças tropicais como malária e leishmaniose.

O corpo também sofre. Entre os riscos ergonômicos, o médico elenca esforço físico intenso (levantamento de peso e atividades repetitivas), posturas inadequadas para operar máquinas ou mesmo na escavação manual, ritmo de trabalho excessivo e a presença em ambiente com baixa acessibilidade e conforto.

Em alta, os riscos psicossociais podem aparecer em função dos períodos de isolamento em áreas remotas, estresse e fadiga causados pela jornada noturna ou trabalho sob pressão, conflitos interpessoais (assédio e pressão por produtividade) e desmotivação.

De forma geral, os acidentes são causados por quedas de altura, desmoronamentos de paredes de minas ou escavações, explosões durante detonações mal planejadas, choques elétricos ou falhas em máquinas, atropelamentos, engolimentos ou aprisionamento em máquinas e, ainda, incêndios e explosões de gases inflamáveis.

“Os fatores de risco mudam por diversos fatores, o que faz do PGR e do PCMSO documentos “vivos”. O desafio atual do setor passa pelo cumprimento da legislação e pela conscientização dos coordenadores de PCMSO e elaboradores de documentos de SST para a necessidade de conhecer o local de trabalho, entender e acompanhar os processos adotados”, frisa José Cincurá Santos.

 

Arcabouço normativo

Foi a partir de 1978 que a mineração passou a ter uma norma regulamentadora.  Inicialmente com o título de “Trabalhos Subterrâneos”, em clara referência ao trabalho das minas, só chegou ao seu nome atual NR-22 – Segurança e Saúde Ocupacional na Mineração, a partir de 1999.

O documento, que passou por atualização em 2024, estabelece medidas de preservação da saúde e integridade física dos trabalhadores em todas as fases da atividade mineral e abrange gerenciamento de riscos ocupacionais, condições de trabalho no subsolo e a céu aberto, transporte a manuseio de explosivos, proteção contra poeiras, ruídos e vibrações e, ainda, treinamentos obrigatórios e medidas de segurança.

Além dela, há outras complementares. São elas:NR-1 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), NR-7 – Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), NR-9 – Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) (substituído pelo PGR desde a modernização das NRs), NR-10 – Segurança em Instalações e Serviços em Eletricidade, NR-12 – Segurança no Trabalho em Máquinas e Equipamentos, NR-15 – Atividades e Operações Insalubres, NR-33 – Segurança e Saúde em Espaços Confinados e NR-35 – Trabalho em Altura.

A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), as portarias do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as Normas da Agência Nacional de Mineração (ANM) e as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) completam um arcabouço que cobre as demandas de SST do setor.

 

Realidade diversa

O Auditor-Fiscal do Trabalho na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, especialista em Medicina do Trabalho e coordenador da Comissão Nacional Tripartite Temática da NR-22, Mário Parreiras de Faria, afirma que, mesmo com tantas normas e recomendações, a realidade da SST nas mineradoras é bastante diversa, a depender do porte da empresa.

Mário Parreiras de Faria – Auditor-Fiscal do Trabalho na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, especialista em Medicina do Trabalho e coordenador da Comissão Nacional Tripartite Temática da NR-22 (Foto: Arquivo pessoal)

“As grandes mineradoras (que são minoria) possuem maior estrutura e recursos para atender os requisitos de SST e de adoção de novas tecnologias que reduzem os riscos de acidentes. Por outro lado, as empresas menores têm uma pequena cultura de segurança, menor condição de atender estes requisitos e ainda adotam processos de trabalho arcaicos e pouco mecanizados”, ressalta.

Conforme dados de fevereiro de 2025, da Agência Nacional de Mineração (ANM), das cerca de 10 mil minas cadastradas pela entidade, aproximadamente 9.500 são consideradas micro ou pequenas, com produção de até 100 mil toneladas anuais de minério. Considerando que os recursos minerais estão em áreas cada vez mais remotas, o risco só aumenta.

Ele afirma, ainda, que o governo tem adotado o modelo tripartite preconizado pela OIT, discutindo por meio de Grupos Técnicos Tripartite, a atualização das normas regulamentadoras de SST. Por esse mecanismo, representantes de trabalhadores e empregadores, junto com a representação de órgãos de Estado discutem as modificações propostas por um grupo técnico.

“Durante as negociações busca-se o consenso. Por outro lado, as empresas do setor fazem pressão e lobby para que não se aprofundem as exigências de SST, muitas vezes argumentando aumento de custos. Mas é preciso enfatizar que investir e melhoria das condições de trabalho não deveria ser encarado como custo, mas um investimento em que todos ganham”, comenta.

 

Nova realidade no mundo do trabalho

Com mais de 50 anos de experiência na área de SST, o engenheiro industrial – eletricista e de Segurança do Trabalho, doutor em Higiene Industrial, auditor fiscal do Trabalho aposentado, professor e conferencista, Leonídio Francisco Ribeiro Filho aponta que, para além dos gargalos tradicionais, a formação dos profissionais que atuam na área é um tema que merece a devida atenção das empresas.

Professor Leonídio Francisco Ribeiro Filho – engenheiro industrial – eletricista e de Segurança do Trabalho, doutor em Higiene Industrial, auditor fiscal do Trabalho aposentado (Foto: Arquivo pessoal)

O especialista lamenta que o governo não esteja dando a devida atenção à SST. “A revisão de uma NR precisa ter o comprometimento de pessoas que dominem temas relacionados à cultura empresarial e sindical. Para atuar em nível de prevenção, a SST deve começar no projeto, o que demandaria uma revisão da NR-2, revogada em 2019. A reativação da Secretária da Segurança e Medicina do Trabalho e valorização da Fundacentro, com abertura de concurso para pesquisadores, seriam outras ações importantes”, sugere.

A disparidade cultural do setor também está presente na representatividade dos trabalhadores. Em outras palavras, há locais no Brasil em que não há representação sindical estabelecida. Para reduzir os danos colaterais, a Federação dos Trabalhadores da Indústria Extrativa de Minas Gerais (FTIEMG) atua nessas áreas, onde a força de trabalho é inorganizada. Segundo o presidente da entidade, José Maria Soares, a negociação para alcançar melhorias é dificultada pela atuação de parte dos empresários que se escondem atrás de uma convenção assinada pelo sindicato patronal.

“Ainda temos empresas que não evoluíram nada quando se fala em SST.  Casos de adoecimentos, mutilações e sequelas – quando não de morte – são parte da rotina de trabalho. As grandes empresas fazem muito marketing. Nas pequenas não são raros casos de pessoas que são jogadas em uma espécie de “corredor da morte”, sem qualquer apoio”, denuncia.

 

Monitoramento em tempo real e redução de riscos

Cerca de 40 quilômetros separam a maior mina subterrânea de ouro em atividade no Brasil – Operações Cuiabá – de Belo Horizonte. O empreendimento da sul-africana AngloGold Ashanti acaba de completar 190 anos, com uma profundidade superior a 1600 metros e 330 km de galerias subterrâneas. Em 2024, a produção foi de 271 mil onças e, apenas no primeiro trimestre deste ano, chegou a 58 mil onças.

Para além da produtividade, a companhia tem atuado para melhorar os índices de segurança e saúde dos trabalhadores. Segundo a diretora de Saúde e Segurança, Fernanda Parro, a segurança é o primeiro valor da companhia. Tanto é assim que o setor integra a Vice-Presidência de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos, onde mescla equipes no escritório central e na operação com expertises em processos de Engenharia de Segurança do Trabalho, Medicina do Trabalho, Saúde e Bem-Estar, Higiene Ocupacional, Gestão de Emergências, Auditorias, Certificações e Sistema de Gestão Integrado.

Fernanda Parro – diretora de Saúde e Segurança da AngloGold Ashanti (Foto: AngloGold Ashanti/Divulgação)

Essa interação estratégica tem resultado em diversos projetos que visam a prevenção de acidentes. Recém-inaugurada, a sala de treinamento de segurança em realidade virtual (3D) que será utilizada na programação anual da companhia vai permitir que os empregados das áreas/atividades críticas interajam com o ambiente e tomem decisões sobre os procedimentos de segurança a partir da simulação de situações de risco que eles enfrentam no dia a dia, com ênfase na aplicação de controles, checklists e procedimentos essenciais para a execução segura de processos.

“Esse novo tipo de treinamento, mais conectado, respeita a diversidade de aprendizagem de cada um e abrange diferentes perfis e estilos, o que aumenta a assertividade do processo educativo”, explica a executiva.

A inovação aplicada à área de SST também está em outros projetos, como o sistema de localização em tempo real das pessoas dentro da mina, chamado People Tracking, que faz o monitoramento ao vivo pelo Centro de Controle Operacional (CCO), tanto para fins de segurança quanto para possibilitar ações rápidas em caso de necessidade.

Sala de treinamento de segurança em realidade virtual (3D) da AngloGold Ashanti (Foto: AngloGold Ashanti/Daniel Mansur)

O exercício de Prontidão Operacional, realizado antes do início da jornada de trabalho, avalia indicadores como atenção, tempo de resposta, reação a estímulos e concentração e permite analisar o grau de fadiga do trabalhador. Complementa essa medida,a instalação de equipamentos que captam sinais de distrações, abertura de boca e fechamento dos olhos – indicadores de sonolência – que são enviados para um centro de controle onde as equipes de medicina e segurança seguem uma matriz de priorização e probabilidade previamente definida para cada trabalhador.

Na tentativa de reduzir riscos no subsolo, a empresa adotou um modelo de operação remota de equipamentos móveis pesados, que são controlados da superfície.

 

De volta ao passado

Pelas ruas de Ouro Preto, antiga Vila Rica – segunda capital de Minas Gerais – a experiente guia de turismo Sueli Maria Rutkowski conta histórias de pessoas e lugares do passado que permanecem vivos na cidade histórica é patrimônio cultural da humanidade. Uma delas tem relação direta com a mineração.

“Os portugueses tinham conhecimento na área de mineração. Visando aumentar o lucro, usaram a mão de obra escravizada dos africanos das regiões de Gana, Togo, Benin, Congo, Moçambiqe e Costa do Ouro. Eles tinham experiência milenar em mineração e, por isso, foram escolhidos pelos traficantes negreiros portugueses para serem escravizados e trazidos para a região das Minas, na colônia portuguesa”, conta.

Entre outras instalações, a Mina de Chico Rei, já desativada, é um dos pontos turísticos mais visitados da cidade. Com suas galerias estreitas e baixas, o complexo que fica no quintal de uma casa de família, no bairro Antônio Dias, mostra como a mineração começou de forma absolutamente precária no Brasil, com base na mão de obra escrava, sem qualquer condição de trabalho ou equipamentos de segurança, com ferramentas rudimentares e com um grau desumano de insalubridade.

Entrada da Mina de Chico Rei, em Ouro Preto, MG (Foto: Sueli Maria Rutkowski / Arquivo pessoal)

Desse capítulo da história nacional nasceram personagens que, pela oralidade do povo da região, que merecem todas as homenagens. Um deles teria sido Galanga Muzinga, monarca congolês capturado, escravizado e comercializado por traficantes de escravos portugueses. Ele conseguiu sobreviver ao navio negreiro, usou os conhecimentos que tinha para encontrar ouro, comprou sua liberdade e a de tantos outros pretos e, rico, adquiriu a mina do seu antigo dono, o que lhe deu grande notoriedade social.

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