Por Saulo Cerqueira de Aguiar Soares
Médico do Trabalho, Advogado, Teólogo, Professor Adjunto da UFPI, Titular da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social e Pós-Doutor. Coordenador do livro Medicina do Trabalho e Segurança – Ed. CRV
O relógio marca 7h45. Banho tomado na academia após o treino. O elevador está lotado, o café ainda quente na caneca e a primeira reunião já começa com um “você viu a mensagem que mandei ontem à noite?”. Para muitos, mais um dia no trabalho; para outros, o início de uma batalha silenciosa contra o esgotamento.
O ambiente de trabalho é um organismo vivo: respira pelas relações, pulsa pelas metas e adoece quando a saúde ocupacional é negligenciada. Nos últimos anos, um “dialeto corporativo” silencioso ganhou força — quiet quitting e quiet cracking. Embora opostos na forma, ambos têm a mesma origem: o desgaste psíquico e físico, aquele cansaço profundo que não se resolve com um fim de semana de descanso.
Quiet quitting não é “pedir demissão em silêncio”, mas a desconexão emocional e funcional: cumprir estritamente o contrato, sem envolvimento extra. Muitas vezes, é um ato de autopreservação diante de sobrecarga, falta de reconhecimento ou liderança tóxica, um sussurro que diz “meu limite chegou”.
Quiet cracking, menos conhecido, surge quando a resistência se rompe. O profissional antes engajado começa a apresentar fissuras emocionais: erros incomuns, esquecimentos, irritabilidade e, por fim, licenças médicas. É o estágio avançado da fadiga ocupacional, último alerta antes da saída definitiva, quando até a paixão pelo trabalho se apaga.
Para médicos do trabalho, identificar esse ponto é crucial. Quiet quitting pode ser revertido com ajustes de gestão. Quiet cracking exige intervenção intensa: acompanhamento clínico, reorganização de demandas e suporte psicossocial. Prevenir requer ciência, sensibilidade e comunicação. Líderes de SST e RH devem entender que não se trata apenas de “gestão de pessoas”, mas de reconhecer sintomas sociais e clínicos que pedem ação antes que se tornem irreversíveis.
Ignorar custa caro. Pesquisas mostram que trabalhadores desengajados ou à beira da ruptura geram perdas de produtividade, alta rotatividade e custos assistenciais. O custo humano, invisível e irreparável, é maior ainda pois sonhos são interrompidos, carreiras abandonadas e identidades profissionais fragmentadas.
Nas empresas públicas, a ausência de meritocracia efetiva alimenta o “fazer apenas o necessário” para preservar a saúde mental. Outros, sob pressão e chefias despreparadas, acabam “trincando” emocionalmente. O problema piora com corrupção sistêmica e tráfico de influência, na quais chefias são definidas antes mesmo do edital. Todos sabem, ninguém comenta e o jogo segue. Romper estruturas assim é quase impossível, no Brasil. Ao perceber que nada mudará até a aposentadoria, muitos entram em modo de economia de energia, vivendo em piloto automático.
Já no ambiente corporativo paulistano, jornadas longas, trânsito intenso, custo de vida alto e metas agressivas mantêm a pressão constante. A cultura do “sempre ligado” desgasta de forma cumulativa, dia após dia. Para muitos, a distância entre sua realidade e as vitrines dos shoppings de luxo é um abismo entre o que vivem e o que a cidade ostenta.
É lamentável perceber que muitos profissionais de medicina do trabalho não possuem autonomia para criar ambientes completamente livres de quiet quitting e quiet cracking. Em diversas organizações, políticas rígidas e restrições orçamentárias impedem a implementação de protocolos eficazes de saúde mental. Muitas vezes, esses mesmos especialistas enfrentam sobrecarga de demandas e adoecem antes de conseguir promover mudanças estruturais.
Seja no gabinete climatizado do Nordeste ou na sala envidraçada de São Paulo, o risco é o mesmo: esgotamento. O que o quiet quitting sussurra, o quiet cracking grita. Trabalho saudável não deveria ser utopia; e sim fruto de decisões conscientes, políticas sólidas e de uma cultura que entende que gente não é recurso.




