Criada em 8 de junho de 1978, a Norma Regulamentadora 1 (NR-1) é conhecida por ser a grande norteadora de outras normas estabelecidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e neste ano, a norma passa por uma grande atualização, levando em conta o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) como eixo central e a implementação mandatória do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), ampliando significativamente as exigências regulatórias.
E não é para menos, de acordo com o último Censo da Saúde Mental realizado pela Vittude, plataforma de desenvolvimento e gestão de programas de saúde mental para empresas, com mais de 174 mil pessoas trabalhadoras, 5,94% demonstraram grande propensão ao esgotamento e, para piorar, mais de 30 mil (17%) afirmaram ter sofrido ou presenciado episódios de assédio no ambiente de trabalho em 2025 (confira íntegra da pesquisa aqui).
Na prática, a nova NR-1 envolve não apenas riscos físicos, químicos e biológicos, mas também fatores ergonômicos e psicossociais (saiba mais). Também fomenta a capacitação e rastreabilidade das informações e do inventário de riscos, especialmente diante de mudanças organizacionais, novas tecnologias ou ocorrência de incidentes.
É o que salienta Bruno Ferola, diretor de Forensic and Integrity da Protiviti, consultoria global de compliance. “Não se trata apenas de cumprir uma exigência regulatória, mas de estruturar um modelo de gestão que seja capaz de identificar, priorizar e mitigar riscos de forma contínua e integrada ao negócio, o que demanda maior maturidade em governança, dados e processos internos”, comenta, destacando que a NR-1 eleva o nível de exigência sobre a alta liderança, uma vez que a responsabilização passa a envolver decisões estratégicas e a efetividade dos controles implementados.
Já na opinião de Cyro Diehl, cofundador da Be.Aliant, especializada em soluções integradas de compliance, a tendência é de aumento na fiscalização e no cruzamento de dados. “As empresas que ainda tratam a Saúde e Segurança do Trabalho (SST) como obrigação documental correm riscos significativos, já que a fiscalização tem evoluído para avaliar a efetividade das medidas adotadas e não apenas a existência de registros”, frisa.
Do ponto de vista jurídico e de conformidade, aliás, o não atendimento às exigências da NR-1 pode gerar autuações administrativas, aplicação de multas, interdições de atividades, aumento do passivo trabalhista e maior exposição a ações judiciais, especialmente em casos de acidentes ou adoecimento ocupacional. Há ainda impactos indiretos, como danos reputacionais e restrições em processos de auditoria, certificação e relacionamento com investidores.
Cenário desafiador para empresas
Apesar da mudança, o nível de maturidade das organizações ainda é baixo: um levantamento realizado pelo fórum HR First Class Rio de Janeiro, com 300 lideranças de Recursos Humanos no Brasil, mostra que apenas 10,7% das empresas no país possuem programas de saúde mental plenamente estruturados.
A pesquisa ainda aponta dois principais entraves nessa agenda: a dificuldade de mensurar resultados (41,1%) e restrições orçamentárias ou disputa com outras prioridades internas (28,6%). Já nas corporações que conta com programas de saúde mental mais estruturados, 8,9% relatam ganhos superiores a 20% em métricas como absenteísmo, presenteísmo, produtividade e redução de custos com saúde. “O contraste evidencia uma diferença entre empresas que tratam o tema de forma estratégica e aquelas que ainda estão em fase inicial de implementação. A lógica deixa de ser reativa, baseada em afastamentos, e passa a ser preventiva, com monitoramento contínuo de indicadores de bem-estar”, arremata Andre Purri, CEO da Alymente, empresa de benefícios corporativos.
Adaptações constantes
A mudança vai além do compliance, haja vista que a percepção de saúde mental deixa de ser um tema periférico e passa a impactar a produtividade, ou seja, já passou da hora de as empresas migrarem de um modelo reativo, baseado em laudos pontuais, para uma lógica de monitoramento contínuo, com foco em prevenção, dados e gestão ativa dos riscos.
Um exemplo é a Carpediem Consultoria de Recursos Humanos, que conta com um time de Desenvolvimento Humano Organizacional (DHO), responsável por implementar práticas contínuas de bem-estar, segurança emocional e desenvolvimento humano.
Aliesh Farias, CEO da empresa e psicóloga, endossa que o ponto crítico na implementação da NR-1 dentro das organizações está principalmente em sensibilizar e conscientizar as lideranças. Para ela, os gestores precisam estar preparados para atuar como agentes de prevenção, promovendo escuta ativa, equilíbrio nas rotinas e ambientes psicologicamente seguros. “A cultura organizacional não se transforma apenas com políticas, mas com comportamento. Por isso, as lideranças são fundamentais para que essas práticas aconteçam no dia a dia”, reforça a especialista.
Para tanto, departamentos e dispositivos de comunicação são recomendados para que todos os atores dentro das organizações estejam cientes das diretrizes da NR-1, como comunicados internos, e-mails, murais e ações de endomarketing, reforçando a importância da saúde mental e da segurança no ambiente corporativo. “Ambientes saudáveis geram colaboradores mais engajados, seguros e produtivos. Esse não é apenas um tema de RH, mas uma decisão estratégica para o futuro das empresas”, continua Farias.
Tecnologia como aliada
A tecnologia pode ser uma grande aliada nesse processo e, principalmente, na constância desses programas. Um case vem do WiFire Pesquisas, sistema desenvolvido pelo grupo TecnoSpeed, que auxilia empresas a mapear riscos psicossociais e atender à nova norma.
A ferramenta criada pela empresa especializada em diagnóstico organizacional e monitoramento de clima corporativo, permite a aplicação de pesquisas de satisfação e questionários personalizados para identificar níveis de estresse, engajamento e bem-estar dos colaboradores, o que resulta em relatórios detalhados que ajudam gestores a identificar pontos críticos no ambiente de trabalho e estruturar planos de ação alinhados às exigências da nova NR-1.
“Quando a organização consegue acompanhar de forma contínua o clima interno e os níveis de estresse das equipes, torna-se possível agir preventivamente antes que problemas se transformem em afastamentos, queda de produtividade ou processos trabalhistas. A nova NR-1 incentiva exatamente essa abordagem preventiva baseada em dados”, salienta Fabio Carvalho, gerente de negócios do grupo.




