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Incêndio em garagem de ônibus em Belo Horizonte alerta para prevenção de sinistros

Destruição de 27 veículos na capital mineira joga luz sobre a urgência de planos de contingência e gestão de riscos no setor de transportes

Na tarde do último domingo, 7 de junho de 2026, um incêndio de grandes proporções atingiu a garagem da Viação Anchieta, localizada no bairro Dom Cabral, na região noroeste de Belo Horizonte (MG). O sinistro, registrado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) às 13h15 na Praça Edgar da Mata Machado, destruiu completamente 27 ônibus da empresa. Para conter o avanço do fogo, foram mobilizados 23 militares e sete viaturas, que atuaram em 12 frentes de combate direto antes de iniciar o trabalho de rescaldo. No momento do incidente, apenas três funcionários estavam no local — um segurança, um eletricista e um mecânico —, e não houve registro de vítimas.

Segundo relatos de colaboradores da operadora, as chamas teriam começado em uma área de mata densa adjacente ao pátio da garagem, propagando-se rapidamente para os veículos estacionados. A perícia da Polícia Civil de Minas Gerais foi acionada para determinar as causas exatas e confirmar se o incêndio teve origem criminosa ou se foi decorrente de combustão espontânea da vegetação seca. O episódio gerou forte impacto na infraestrutura urbana local, exigindo bloqueios viários pela BHTrans na Avenida Itaú, na Rua João Pedro Julião e na rotatória da Avenida 31 de Março. Paralelamente, a Superintendência de Mobilidade do Município (Sumob), o consórcio operador e o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte (SetraBH) iniciaram uma avaliação emergencial para mitigar os impactos na operação do transporte coletivo da capital.

 

Cenário nacional e o efeito dominó dos sinistros em garagens de ônibus

 

Ocorrências de incêndios em garagens de ônibus não são casos isolados no Brasil e figuram entre os pesadelos logísticos e financeiros mais complexos do setor de transportes. Estatísticas das corporações de bombeiros indicam que esses eventos costumam ser devastadores devido à alta carga de incêndio concentrada. Os ônibus possuem tanques de combustível volumosos, além de uma quantidade massiva de materiais altamente inflamáveis em seu interior, como polímeros nos painéis, espumas de poliuretano nos assentos, fiações elétricas e pneus de borracha.

Quando o fogo atinge um veículo dentro de um pátio, a proximidade do estacionamento em formato de frota (em linhas paralelas) gera o efeito dominó. O calor irradiado por condução e convecção térmica rompe as janelas dos ônibus vizinhos em poucos minutos, alimentando o oxigênio e propagando o fogo de forma geométrica. O impacto vai muito além da perda patrimonial das empresas, estimada em milhões de reais por veículo destruído; ele desestrutura o ecossistema urbano ao reduzir a frota disponível, gerando atrasos, superlotação no sistema de transporte público e prejuízos severos à mobilidade das cidades.

 

Legislação pertinente e a interface com as NRs

 

A segurança jurídica e operacional contra incêndios em garagens de ônibus é amparada por um arcabouço rigoroso. Em nível estadual, as diretrizes são ditadas pelos Decretos Estaduais de Segurança Contra Incêndio e Pânico, aplicados por meio das Instruções Técnicas (ITs) dos Corpos de Bombeiros locais. No âmbito trabalhista federal, a conformidade legal exige o estrito cumprimento da Norma Regulamentadora nº 23 (Proteção Contra Incêndios), que determina que todas as organizações adotem medidas de prevenção, disponham de saídas rápidas e sinalizadas, e mantenham equipamentos de combate em perfeito estado de funcionamento.

Além disso, por se tratar de ambientes que concentram atividades de manutenção, lavagem, soldagem e abastecimento, as garagens sofrem a incidência direta da NR-20 (Segurança e Saúde no Trabalho com Inflamáveis e Combustíveis). A norma exige prontuários detalhados das instalações, análise de riscos operacionais e capacitação específica para os trabalhadores que lidam com combustíveis e lubrificantes.

 

Recomendações dos Bombeiros e Medidas de Prevenção

 

Para evitar que o fogo transforme frotas em cinzas, os Corpos de Bombeiros e especialistas em engenharia de mitigação de riscos reforçam que a prevenção em garagens de ônibus deve ser dividida em duas frentes fundamentais: a segurança perimetral (externa) e a gestão de processos internos.

  1. Gestão Perimetral e Barreiras de Isolamento

Como o caso de Belo Horizonte evidenciou, o risco externo é uma ameaça real, principalmente nos meses de estiagem. As garagens devem manter aceiros limpos — faixas livres de vegetação com largura mínima recomendada — ao longo de todo o perímetro de divisas com matas, terrenos baldios ou rodovias. O monitoramento das cercas e o recolhimento de lixos ou entulhos que possam servir de combustível inicial são vitais para impedir que incêndios externos alcancem a frota.

  1. Organização e Layout do Estacionamento

Sempre que o espaço físico permitir, as empresas devem adotar layouts de estacionamento que prevejam corredores de segurança ou distanciamentos estratégicos entre blocos de veículos. Manter rotas de fuga internas livres e garantir que chaves reservas de manobra estejam acessíveis à equipe de plantão (seguranças e controladores) permite o deslocamento rápido dos ônibus saudáveis em caso de emergência.

  1. Sistemas Ativos de Combate e Brigadas de Incêndio

A presença de uma Brigada de Incêndio interna, devidamente treinada sob os preceitos da NR-23, é o fator determinante para que um princípio de incêndio não se transforme em uma tragédia de grandes proporções. Além disso, as instalações precisam dispor de:

  • Redes de hidrantes com pressão adequada e mangueiras testadas;
  • Extintores de pó químico seco (PQS) e CO2 posicionados de forma estratégica e com carga válida;
  • Sistemas de iluminação e alarmes de emergência revisados periodicamente.
  1. Manutenção Preventiva da Frota

Muitos incêndios internos originam-se de falhas mecânicas ou panes elétricas no próprio veículo. Revisões constantes na fiação dos chicotes elétricos, sistemas de injeção, alternadores e baterias, especialmente após a instalação de componentes eletrônicos adicionais, como validadores ou sistemas de monitoramento por câmeras, reduzem as chances de curtos-circuitos. A cultura da segurança na indústria do transporte exige que a prevenção seja tratada como investimento prioritário na continuidade dos negócios.

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