Temas sensíveis extramuros da carreira como luto, discussão familiar, separação conjugal, assuntos escolares e acadêmicos, ou uma reforma em casa e cuidado com os filhos a quem atua remotamente, afetam a produtividade da pessoa trabalhadora. Com as atenções voltadas para a saúde mental, especialmente com a atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), eis que surge a pergunta: como diferenciar fatores psicossociais estritamente laborais daqueles fora do emprego?
Na opinião do consultor João Paulo Devito dos Santos, advogado empresarial e trabalhista e médico do trabalho, um estudo de 1984 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) já evidenciava que o campo psicossocial é, por natureza, uma intersecção entre o laboral e o pessoal, o que torna a diferenciação um exercício de rigor metodológico, e não de simplificação.
Santos destaca que o desafio a gestores de Recursos Humanos, profissionais em Saúde e Segurança do Trabalho (SST), ergonomia e lideranças, está em diferenciar quando um adoecimento deriva de condições intrínsecas do trabalho ou de fatores externos. “Essa diferenciação não é meramente acadêmica: dela dependem a correta elaboração do inventário de riscos, a definição das medidas de prevenção e, em última instância, a responsabilização jurídica do empregador”, escreve o especialista, em artigo ao Migalhas.
Obviamente, cabe lembrar que as pessoas não se “tornam outras” ao adentrar o escritório – ou ao ligar o notebook em um cômodo de suas residências – e que muitos assuntos íntimos acabam por perpassar o âmbito profissional. O advogado completa que embora as responsabilidades das corporações estejam ligadas a fatores laborais, é importante o acolhimento e a escuta: “Isso não pode ser visto como obrigação normativa, mas como investimento em capital humano e em uma cultura organizacional genuinamente saudável”, pontua.
Empresas podem ajudar órgãos públicos e privados
Como citado, o ambiente corporativo pode adotar dentro de sua rotina a ajuda psicológica, o que também engloba quem tem como profissão auxiliar pessoas em situação de vulnerabilidade social. Em Campos dos Goytacazes (RJ), a Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania, iniciou este ano o projeto “A gente ama cuidar e ama quem cuida”, pensando no bem-estar de quem atua nos abrigos de acolhimento às pessoas em situação de rua.
A ação envolve desde aferição de pressão arterial e testes de glicemia até rodas de conversa sobre manejo do estresse, qualidade do sono e autocuidado, além de práticas integrativas, como meditação guiada, técnicas de respiração e acolhimento emocional. “A ideia é fortalecer o cuidado de quem cuida. Esses profissionais lidam diariamente com sofrimento e demandas emocionais intensas. É fundamental acolher e promover a saúde”, conta a subsecretária da pasta, Grazielle Gonçalves.
Vida acadêmica e saúde mental
O período acadêmico é marcado por episódios de estresse e ansiedade em meio a avaliações, estágios e elaboração de artigos, defesas de teses e dissertações. Para tanto, universidades também estão disponibilizando de espaços de ajuda, a exemplo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que disponibilizou no seu Espaço de Escuta e Acolhimento (EEA) rodas de conversa mediadas.
Conduzidas por estudantes de Psicologia, as rodas são fruto de uma parceria de estágio da UFU com o curso de Psicologia da Faculdade Uberlandense de Núcleos Integrados de Ensino, Serviço Social e Aprendizagem (Uniessa). “Não se tratam de um espaço clínico, mas uma escuta especializada que visa acolher, sugerir e, inclusive, encaminhar demandas mais complexas para os serviços especializados da UFU. A proposta, aliás, nasceu como uma complemento às políticas já existentes na universidade”, explica a coordenadora do projeto, Carla Nunes.





