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MEDICINA AEROESPACIAL: cuidando de quem voa e de quem faz voar

Coluna Direito em SST

Por Saulo Cerqueira de Aguiar Soares

Médico do Trabalho, Advogado, Teólogo, Professor Adjunto da UFPI, Titular da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social e Pós-Doutor. Coordenador do livro Medicina do Trabalho e Segurança – Ed. CRV

Durante uma viagem entre Argentina e Brasil, com conexão no Chile, por uma companhia aérea brasileira, vivenciei uma situação que evidencia o descaso estrutural com a saúde e o bem-estar do passageiro. Uma manutenção não programada provocou um efeito cascata nas conexões, resultando em um atraso superior a 12 horas. Ao buscar apoio da equipe de solo, fui recebido com total indiferença. Não houve empatia, nem explicação clara, tampouco o mínimo gesto de acolhimento, como oferecer água ou orientação. Nenhuma assistência foi disponibilizada, nem hospedagem, nem transporte.

Mesmo com cartão de embarque e assento confirmado, fui inicialmente impedido de embarcar, pois a companhia havia realocado meu lugar para outro passageiro. A sensação de desamparo foi agravada pela ausência completa de suporte médico ou institucional. Ingressei no voo em estado de exaustão física e vulnerabilidade emocional, sem qualquer protocolo de acolhimento ou triagem clínica.

No hall de conexões do aeroporto, a cena era desoladora. Encontrei dezenas de passageiros em situação semelhante. Ouvi o relato de um homem diabético em processo de descompensação pela falta de alimento. Mães com crianças de colo estavam exaustas, sem lugar adequado para repouso. Uma pessoa com deficiência, em cadeira de rodas, aguardava há mais de seis horas sem qualquer suporte, sem saber como enfrentaria toda a madrugada. O sofrimento humano estava ali, visível, ignorado, sem assistência, sem protocolo, sem dignidade.

Deixar passageiros sentados no chão do aeroporto por toda a madrugada, aguardando uma remarcação, sem qualquer suporte, é uma prática desumana. Essa negligência fere a dignidade humana e compromete a segurança aérea. Passageiros submetidos a esse tipo de abandono entram no voo em estado de descompensação física e emocional, exaustos, desidratados, ansiosos, muitas vezes sem alimentação ou repouso mínimo.

A segurança de um voo não depende apenas da aeronave e da tripulação. Ela começa no solo, com o cuidado aos passageiros. Permitir que pessoas embarquem após horas de sofrimento, sem triagem clínica, é ignorar que o corpo humano tem limites. Companhias aéreas devem agir com empatia, pois não transportam apenas passageiros, mas cuidam de vidas em momentos de vulnerabilidade física e emocional. Atrasos prolongados, falta de alimentação, repouso e suporte médico expõem o corpo humano ao limite, gerando riscos à segurança aérea e ao próprio negócio. 

Esse episódio que aconteceu comigo não é isolado. Ele revela uma falha sistêmica na forma como o transporte aéreo lida com o sofrimento humano em trânsito. É nesse ponto que a medicina aeroespacial, recentemente reconhecida como área de atuação médica, precisa ampliar seu alcance.

A medicina aeroespacial contempla o manejo de intercorrências clínicas durante o voo. No entanto, a resposta a emergências médicas ainda depende da prática recorrente de anunciar pelo sistema de som se há algum médico a bordo, o que expõe uma grave lacuna na gestão de saúde em voo.

O Brasil deveria adotar iniciativas como o programa Doctor on Board, da Lufthansa, que identifica médicos voluntários previamente cadastrados. Ao embarcar, a tripulação já sabe quem está habilitado a prestar assistência, o que agiliza a resposta e aumenta a segurança coletiva.

Mais ainda, é urgente que as companhias aéreas brasileiras assumam a responsabilidade de oferecer, em casos de atrasos superiores a quatro horas, a presença de um médico especialista em medicina aeroespacial nas salas de embarque e conexão. Esse profissional poderia realizar triagens básicas, prestar primeiros cuidados, orientar passageiros em situação de risco clínico e garantir que o sofrimento humano não seja tratado como mero efeito colateral logístico.

A medicina aeroespacial não deve se limitar à tripulação. Ela deve alcançar os corredores da aeronave e os rostos exaustos dos passageiros em conexão, o que é essencial para transformar o transporte aéreo em um ambiente verdadeiramente seguro, humano e digno.

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