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Sintesp realiza 1º Contest e mostra que o futuro da SST já começou

Com objetivo de valorizar a autonomia do técnico de segurança do trabalho diante do ritmo acelerado das atualizações normativas na área, evento inédito em São Paulo reuniu especialistas para atualizar profissionais sobre normas e tecnologias, gestão de saúde mental e novos desafios nos ambientes laborais

Nos dias 28, 29 e 30 de maio de 2026, a cidade de São Paulo sediou o 1º Congresso Nacional dos Técnicos de Segurança do Trabalho do Estado de São Paulo (Contest), o qual reuniu especialistas renomados, lideranças sindicais e profissionais da área para discutir o tema central: “O futuro da segurança e saúde no trabalho”.

A programação, que contou com duas palestras por dia, focou nas reais necessidades, direitos e qualificações do técnico de segurança do trabalho, atraindo 170 inscritos e mantendo uma média constante de 80 participantes por dia. O encontro foi promovido pelo Sindicato dos Técnicos em Segurança do Trabalho no Estado de São Paulo (Sintesp) e contou com o apoio institucional de diversas entidades do setor.

A criação do Contest nasceu de uma inquietação da diretoria do Sintesp em relação à representatividade técnica da categoria nos grandes fóruns nacionais. O presidente do sindicato, Valdizar Albuquerque, relata que a percepção de uma lacuna para a contribuição da categoria foi o mote para a concepção do projeto, cuja estruturação teve início em novembro de 2025. “Eu já vinha há muito tempo analisando essa questão dos congressos. Sempre somos convidados para ajudar em vários congressos e veio essa percepção pessoal de que o Sintesp também podemos ter o seu congresso”, contou.

Disposto consolidar o projeto, o presidente acionou o diretor da entidade, Paulino Gama, para dar andamento à pauta de viabilidade, o qual retornou confirmando que o Sintesp tinha todas as condições para realizá-lo. A partir da autorização concedida em dezembro de 2025, o formato foi desenhado pelo presidente com base em sua vasta experiência em eventos setoriais, mas a execução e a construção prática ficaram integralmente a cargo do corpo de diretores do Sintesp, entre eles Sebastião Ferreira, Marcos Antonio de Almeira Ribeiro e Selma Rossana.

Diretores, palestrantes e participantes destacaram importância desta primeira edição do Contest

 

O grande diferencial do Contest, segundo Valdizar Albuquerque, reside no público-alvo e na especificidade dos debates. Enquanto a maioria dos eventos do setor adotam uma abordagem mais ampla, o congresso do Sintesp foi construído sob medida para quem atua diretamente no chão de fábrica e na gestão diária dos riscos operacionais. “Aproveitamos o formato que já tínhamos como experiência de outros congressos e fiz a proposta da programação, porém com o objetivo de que o Contest falasse para nós, técnicos de segurança do trabalho. É um congresso focado no TST. Mesmo que outros profissionais prevencionistas se interessem, como os engenheiros de segurança, o modelo que adotamos foi voltado para a nossa categoria, para falar da nossa profissão, do nosso mercado de trabalho. Além das necessidades do técnico de segurança e as especializações que o profissional precisa”, detalha Albuquerque.

 

Primeiro dia: gestão estratégica da NR-1 e controle social em SST

 

A abertura técnica do 1º Contest, na manhã do dia 28 de maio, trouxe para o centro do debate a NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), especificamente sob o prisma da saúde mental e da cultura organizacional. O palestrante Eduardo Milaneli, CEO e sócio investidor da FAP Online, ex-coordenador conselheiro do GEHST, integrante da equipe piloto do eSocial e ex-perito do Ministério Público Estadual, além de ter composto o grupo responsável pela própria reformulação das Normas Regulamentadoras do Ministério do Trabalho e Previdência Social, ministrou a palestra “Gestão Estratégica NR-1 – Saúde Mental, Fatores Psicossociais e Cultura”.

Eduardo Milaneli em sua palestra

 

Milaneli demonstrou de forma analítica que o modelo tradicional de prevenção focado apenas em riscos físicos e químicos está obsoleto. O especialista enfatizou a urgência de as empresas reestruturarem suas culturas internas para acolher as demandas de saúde mental, integrando a avaliação psicossocial ao gerenciamento de riscos cotidianos.

No período da tarde, o foco mudou para a fiscalização civil e democrática com a apresentação de Adir de Souza, presidente do Sindicato dos Técnicos de Segurança do Trabalho no Estado do Paraná (Sintespar). Abordando o tema “Controle Social em Segurança e Saúde no Trabalho”, Adir detalhou os novos mecanismos legais que permitem à sociedade, aos sindicatos e aos órgãos públicos monitorar as condições laborais de forma compartilhada.

Adir de Souza, do Sintespar

 

Valdizar Albuquerque contextualizou a escolha desse tema explicando que as atualizações normativas reforçam o papel do técnico de segurança como um agente público de transformação, cujos atos impactam múltiplos setores do Estado. “Destacamos esse tema devido ao contexto de que as novas normas regulamentadoras trazem um pouco mais sobre essa questão do controle social, elas mantêm o controle social que já existia nelas e estão trazendo novas ferramentas de controle social. O técnico de segurança tem que entender o quanto o exercício profissional dele vai ser, entre aspas, monitorado por meio do controle social. E, especialmente, para pontuar o quanto as pessoas têm interesse no exercício profissional dele: o Estado tem interesse, a Previdência Social, o Ministério do Trabalho, o Ministério da Saúde, portanto é uma questão imprescindível para o TST”, esclarece o presidente do Sintesp.

Ele ainda complementa que o envolvimento sindical é parte intrínseca desse ecossistema: “Os trabalhadores, através dos seus sindicatos representativos, têm interesse no exercício profissional dele. Porque é através do resultado que nós produzimos pelo nosso trabalho, no trabalhador, que vai reduzir as mazelas no ambiente laboral. Está aí o psicossocial, que é o terceiro fator que mais afasta trabalhadores hoje. Essa identificação e a mudança na legislação para tratar esse mal é um controle social. A NR-1 é uma ferramenta para o controle social de um dano à saúde do trabalhador que estava acontecendo e exigiu esse trabalho mais específico”, observou.

Segundo Albuquerque, durante os debates, um ponto que chamou a atenção dos congressistas foi o ritmo acelerado com que o ambiente regulatório de SST passará a mudar nos próximos anos. Fazendo um paralelo histórico, ele chamou a atenção para a velocidade das negociações ministeriais, por exemplo. “Gostaria de comentar que a NR-10, que foi assinada no dia 29 de maio, ficou cinco anos em discussão. A penúltima revisão ficou dez anos. E está estabelecido no Ministério do Trabalho o prazo máximo de revisão de todas as normas. Todas as normas não podem passar de cinco anos sem revisão. Então, a demanda de trabalho e a atualização vai ter uma velocidade muito maior. E tem que ter gente preparada para atender essa necessidade”, alertou.

 

Segundo dia: Inteligência Artificial no ensino e o empoderamento legal do TST

 

O segundo dia do Contest, 29 de maio, conectou a tecnologia à prática jurídica da profissão. Na sessão matutina, Fabiana Raulino, CEO da Trampolean Educação Corporativa e Transformação Digital, doutoranda em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP, mestre em Engenharia de Produção pela UFSCar e especialista em Ergonomia pela USP, chocou positivamente o público com a palestra “IA, Avatares e Hipermídia: como diferentes públicos realmente aprendem sobre segurança do trabalho”.

Fabiana Raulino, durante sua apresentação

 

A pesquisadora apresentou soluções práticas de como a inteligência artificial generativa e os ambientes imersivos podem ser aplicados em treinamentos obrigatórios, superando a barreira do desinteresse dos colaboradores e adaptando a mensagem preventiva para as novas gerações.

Valdizar Albuquerque endossou a visão inovadora trazida pela pesquisadora, apontando para a falência dos modelos educacionais corporativos tradicionais. “A forma como que as pessoas aprendem, as metodologias do ensino-aprendizagem em SST que eu tive quando eu me formei, não se aplicam mais. Acabou essa fase. Temos que nos adaptar rapidamente para atuar com a digitalização, entre outras ferramentas inovadoras”, avaliou o dirigente.

À tarde, o próprio presidente do Sintesp assumiu o púlpito para debater uma temática fundamental e, muitas vezes, negligenciada pela categoria: “Profissional Legalmente Habilitado em Saúde e Segurança do Trabalho, Direitos e Deveres ao Livre Exercício Profissional”. Em sua exposição, Albuquerque fez um resgate histórico da Constituição Federal e da Lei nº 7.410/1985, desmistificando o papel das autarquias e dos conselhos de classe no registro profissional com o intuito de mostrar a importância do empoderando aos técnicos de segurança e confirmação sobre a sua autonomia técnica.

“Esse livre exercício profissional, do artigo 5º da Constituição, é a base de sustentação de toda a nossa profissão, considerando ainda a Lei nº 7.410/1985. O que acontece: muitos profissionais não interpretaram a lei, não entenderam e não pararam para se informar sobre isso. O conceito do profissional legalmente habilitado é aquele no qual a formação profissional exige a habilitação profissional, o Estado determina que ele tem que ter uma autorização para exercer a profissão”, esclareceu Albuquerque durante a palestra.

Valdizar Albuquerque, presidente do Sintesp

 

Para tornar a explicação didática, o presidente utilizou exemplos práticos de conselhos consolidados. “Um exemplo de que é o Estado que autoriza é o caso do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA). Quando o Estado criou o CREA, o Estado disse: ‘CREA, você vai dar registro profissional para essa formação profissional’. Quem que habilitou? Quem que deu a diretriz para a habilitação? Foi o Estado. E o CREA cumpre com o que o Estado o mandou fazer. O mesmo caso quando o Estado criou o Conselho Regional de Medicina (CRM), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Mas, voltando para o nosso caso, o Estado disse na Lei 7.410: a habilitação profissional do técnico de segurança do trabalho é comigo. Está lá na lei. Então, eu explico isso para que eles se empoderem, que eles saibam o que eles são. O profissional técnico de segurança do trabalho é uma ferramenta pública, de saúde pública do trabalhador, que o Estado criou”, afirmou o presidente do Sintesp.

 

Terceiro dia: ferramentas práticas para riscos psicossociais e novas visões em SST

 

O encerramento do congresso, no dia 30 de maio, ficou sob a responsabilidade de uma das figuras mais influentes da internet na área de prevenção de acidentes: Nestor W. Neto. Escritor de cinco obras da área (sendo quatro autorais e uma coautoria), criador do portal Segurança do Trabalho nwn — considerado o maior site do segmento no Brasil — e especialista em programas de segurança comportamental, Nestor conduziu duas apresentações sequenciais de alto impacto prático.

Na primeira, intitulada “Avaliação e Gestão dos Riscos Psicossociais”, Nestor complementou a fundamentação teórica exposta por Eduardo Milaneli no primeiro dia, demonstrando matrizes de risco, metodologias de triagem e ferramentas aplicáveis para mapear o estresse, o burnout e o assédio no ambiente corporativo.

Nestor W. Neto em sua palestra

 

Na sequência, fechou a grade do Contest com a palestra “As novas visões e desafios em SST”, jogando luz sobre as tendências globais de segurança baseada no comportamento, entre outras competências exigidas do técnico moderno.

 

O desafio imediato da NR-1

 

A realização do congresso coincidiu estrategicamente com um momento de virada regulatória no país. No dia 26 de maio de 2026, entrou oficialmente em vigor a alteração do item 1.5 da NR-1, texto que incluiu obrigatoriamente os Riscos Psicossociais no escopo do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Questionado se o mercado produtivo e os profissionais estão prontos para cumprir a nova exigência, Valdizar Albuquerque foi categórico e realista em seu diagnóstico:

“Não estão. As empresas não estão preparadas porque os profissionais da SST não as prepararam. Outro ponto é se a empresa está preparada para a nova metodologia de gestão? No cenário atual, não. Quem vai preparar é o profissional de RH que ela tem, em conjunto com a segurança. Se o profissional de SST estiver preparado, a empresa vai estar preparada. Então, as empresas contratam seus SESMTs, mas os profissionais de SESMTs, em sua maioria, não se prepararam previamente para implantar essa virada de chave”, frisou o presidente.

É justamente para corrigir esse descompasso de mercado que o Sintesp estruturou o Contest, servindo como uma espécie de “farol de capacitação emergencial” para os técnicos paulistas e de outras regiões do país.

 

Balanço final e perspectivas para 2027

 

A avaliação final da diretoria do Sintesp sobre essa primeira edição foi de extrema satisfação. O equilíbrio entre o volume de inscritos, a densidade técnica das palestras e a interatividade do público superou as projeções mais otimistas da organização. Ao final foram realizados sorteios de brindes oferecidos pelos patrocinadores do evento.

“Estamos muito animados, tanto em público quanto em conteúdo. Sendo o primeiro, nós estávamos com muito receio, mas teve uma aceitação muito boa. Foram 170 pessoas inscritas. E as pessoas presentes, os conteúdos atenderam perfeitamente as expectativas. Atingimos o objetivo principal, que é preparar o técnico de segurança do trabalho para o futuro, uma vez que esse futuro chega cada vez mais rápido e as alterações normativas são muito céleres”, celebrou Valdizar.

Valdizar Albuquerque, acompanhado de Armando Henrique, presidente da Anatest, e Marcos Ribeiro, vice-presidente do Sintesp

 

O sucesso da edição pioneira consolida o 1º Contest no calendário oficial de eventos de Segurança e Saúde do Trabalho do Brasil. A organização confirmou que o formato passará a ser anual, e o planejamento para a próxima edição, em 2027, já está em andamento.

Fotos: Sintesp/Divulgação

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