Por Rogério Luiz Balbinot
Os afastamentos por motivo de saúde representam um desafio para as empresas e exigem atenção ao que os números revelam sobre os trabalhadores e suas atividades. Registrar as ausências é necessário, mas uma gestão consistente precisa transformar essas informações em conhecimento para orientar ações.
Neste 4 de outubro, Dia do Médico do Trabalho, essa discussão também é uma forma de reconhecer a contribuição de quem conecta o conhecimento médico à realidade das organizações.
Em uma conversa promovida pela RSData, o Dr. João Opitz Neto compartilhou reflexões sobre a evolução da medicina do trabalho, a saúde mental e o papel da tecnologia. Suas contribuições ajudam a compreender por que a atuação médica precisa ter espaço na gestão da saúde dos trabalhadores.
Uma atuação que vai além dos exames
Ao abordar a evolução da especialidade, o Dr. João lembra que a atuação nas empresas frequentemente se concentrava na emissão de Atestados de Saúde Ocupacional, os ASOs, e nos atendimentos assistenciais. Hoje, destaca uma responsabilidade mais abrangente:
“O que se exige de um médico do trabalho é que ele tenha capacidade de gestão.”
Essa capacidade envolve conhecer as exigências da NR-7, dialogar com diferentes setores, acompanhar a utilização dos planos de saúde e atuar para reduzir o absenteísmo e os custos.
O que os afastamentos ajudam a enxergar
Entre os desafios atuais, o Dr. João destaca as doenças osteomusculares e a crescente preocupação com a saúde mental. Em sua avaliação, as doenças mentais estão entre as principais causas de afastamento em muitas empresas.
Para a gestão, esse cenário exige olhar além do total de dias perdidos. Frequência, duração e recorrência dos afastamentos oferecem perspectivas diferentes e ajudam a identificar situações que merecem investigação.
Muitos afastamentos curtos e poucos afastamentos prolongados podem exigir abordagens distintas. Da mesma forma, o indicador geral de uma empresa pode esconder diferenças entre setores e atividades.
Os números são um ponto de partida. Uma concentração de afastamentos em determinado setor merece atenção, mas não comprova, isoladamente, que o trabalho causou o adoecimento. A interpretação exige avaliação médica e conhecimento das condições de trabalho.
Nesse contexto, o Dr. João chama a atenção para a relação entre fatores psicossociais e ergonomia. Em sua avaliação, o fator psicossocial é um tipo de risco ergonômico, ligado à ergonomia organizacional: à maneira como o trabalho se organiza e como as atividades são distribuídas.
Essa perspectiva reforça a importância de aproximar o acompanhamento da saúde da análise da realidade do trabalho. Conhecer os motivos das ausências deve ajudar a formular perguntas, definir prioridades e orientar intervenções.
Informação para agir, gestão para evitar custos
O acesso às informações é fundamental para essa atuação. O Dr. João recorda os cálculos realizados manualmente, com calculadoras e planilhas, e vê na inteligência artificial uma ferramenta auxiliar que permite trabalhar com mais clareza e objetividade, em menos tempo. Para o Dr. João, a tecnologia apoia o médico do trabalho, sem substituí-lo.
Ao mencionar a RSData, destaca a importância dos sistemas utilizados no dia a dia:
“O software que a empresa adota, que o médico do trabalho utiliza no seu dia a dia, faz total diferença.”
Considero que o valor dessas ferramentas aparece quando os dados ajudam a conhecer a situação da empresa e acompanhar os resultados das ações. A tecnologia oferece apoio; a interpretação profissional dá sentido às informações.
É nesse contexto que ganha força o recado do Dr. João aos gestores:
“Saúde e segurança do trabalho não é custo, é investimento.”
A falta de gestão pode trazer perda de produção, afastamentos e passivos trabalhistas, previdenciários e tributários. Por isso, a gestão da saúde e da segurança do trabalho precisa considerar uma perspectiva de médio e longo prazo.
“Muitas vezes o barato sai caro”, alerta o Dr. João. O suporte oferecido, a eficiência do serviço e a capacidade de apresentar indicadores sobre a saúde dos trabalhadores precisam fazer parte dessa escolha.
Para o Dr. João, a escolha pelo preço precisa considerar também a eficiência do serviço. Sem o suporte e os resultados necessários, a economia inicial pode dar lugar a custos maiores no futuro.
As reflexões do Dr. João Opitz Neto reforçam uma questão central: a medicina do trabalho contribui para a gestão quando seu conhecimento encontra espaço para orientar ações.
Neste Dia do Médico do Trabalho, deixo minha homenagem ao Dr. João e a todos os profissionais que dedicam sua atuação à saúde dos trabalhadores. Valorizar essa contribuição significa ouvir suas orientações e oferecer condições para que se transformem em cuidado, prevenção e melhores decisões.




