No mês dedicado à prevenção de acidentes de trabalho, uma figura se destaca nessa jornada: o médico. Muito mais que cumprir as medidas trabalhistas e fazer os exames periódicos, admissionais e demissionais, esse profissional tem como papel crucial a orientação, a vistoria técnica, e, principalmente, a escuta do colaborador a favor da saúde e segurança.
Essa premissa, aliás, está presente no Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), regulamentado pela Norma Regulamentadora nº 7 (NR-7). A gestão de Saúde e Segurança no Trabalho (SST) deixou de ser um setor focado apenas em “assinar atestados” ou cumprir burocracias de gaveta, para se consolidar como uma área de inteligência estratégica.
É o que endossa Charles Dias, Médico do Trabalho e CEO da Perfil SST, consultoria da área. Para o executivo, em vez de focar apenas na doença, o mercado migrou para o conceito de chamado de cuidado ativo, ou seja, uma tríade que envolve avaliar a organização do trabalho, aplicar a ergonomia cognitiva e usar a tecnologia a favor da prevenção.
“A evolução da SST no Brasil é marcada por exigências rigorosas, como o cruzamento de dados em tempo real pelo eSocial e as atualizações normativas, a exemplo da nova NR-1, que trouxe os fatores de risco psicossociais para o centro das atenções. A saúde corporativa não é apenas sobre números e burocracia, é sobre indicadores de desempenho e pessoas”, salienta, ao g1.
Integração de dados
No Congresso, a Comissão de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública em defensa da criação do Sistema Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (Sinast), sistema para integrar dados e políticas públicas para enfrentar mortes e adoecimentos evitáveis no trabalho, inspirado no modelo do Sistema Nacional de Segurança Alimentar, criado em 2006 para a erradicação da fome por meio do fomento a alimentos nutritivos.
Um dos pontos em discussão na audiência (saiba mais na matéria feita pela Agência Câmara de Notícias), foi a baixa efetividade do Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP), instrumento que relaciona doenças ao trabalho.
Segundo o procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT), Raymundo Lima Ribeiro Júnior, a concessão de benefícios por acidente de trabalho caiu 54% entre 2008 e 2023. “O maior problema hoje é a subnotificação de casos entre trabalhadores com carteira assinada”, alertou durante a reunião.
Pesquisa científica
Um exemplo da importância das vistorias médicas vem da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), por meio do setor de Divisão de Vigilância e Promoção à Saúde (DVPS).
Oficialmente iniciadas no mês de março de 2026 no Hospital de Clínicas da UFTM, as visitas são feitas pelos médicos do trabalho Marcella Ribeiro Vieira e Bernardo Sousa Fernandes, médico do trabalho e responsável técnico (RT) pelo PCMSO da Instituição, em estudaram a importância dessa atividade para evitar acidentes ocupacionais, dentro da instituição de saúde e ensino.
“A iniciativa marca um avanço institucional ao consolidar a atuação in loco como estratégia estruturante na promoção da saúde do trabalhador. A presença do profissional da saúde no ambiente laboral é a peça-chave para a prevenção e a gestão em saúde ocupacional. E esse trabalho partiu da experiência clínica e da observação direta da rotina de trabalho”, explica a pesquisadora.
A pesquisa foi premiada em 2025 no 22º Congresso da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), em Goiás, por demonstrar resultados aplicáveis à rotina institucional. “A visita técnica não é uma atividade acessória, mas parte essencial da atuação do Médico do Trabalho”, arremata Vieira.
Na prática, esse profissional não pode ser visto como aquele que dará o veredito se está apto ou não para trabalhar, mas a ponte entre a saúde e a prevenção durante a rotina laboral.
Guia
A Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) conta com um material digital (íntegra aqui) intitulado “Guia Fácil da Saúde no Trabalho para Trabalhadoras e Trabalhadores”, para aproximar esse profissional de saúde com trabalhadores.
Em seu conteúdo, informações sobre os exames mais realizados, inclusive para retorno ao trabalho após afastamentos; utilização de Equipamentos de Proteção (EPI); ambientes seguros e check-ups, ideais para saber se está tudo bem.




