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Bombeiros: a nobre missão de salvar vidas e a expansão da segurança no Brasil

O Dia do Bombeiro ressalta o preparo, a vocação e os múltiplos papéis dos profissionais combatentes, marcados por conquistas históricas de infraestrutura e debates institucionais sobre o legado corporativo

Mais do que conter chamas ou mitigar grandes sinistros, a essência do cotidiano de um bombeiro reside na coragem inabalável de proteger a vida humana e o patrimônio da comunidade. No dia 2 de julho passado, o país celebrou o Dia do Bombeiro, data que reverencia aqueles que escolhem a abnegação como o ofício e o serviço ao próximo como destino de vida.

A celebração oficial remonta a 1856, quando o Imperador Dom Pedro II assinou o decreto que criou o Corpo Provisório de Bombeiros da Corte, consolidado, posteriormente, em 1954, pelo Decreto nº 35.309, de Getúlio Vargas. Contudo, por trás da solenidade histórica das corporações, pulsa a rotina real de quartéis, viaturas e homens e mulheres que enfrentam o perigo em frações de segundo.

 

Vocação e a rotina nos quartéis

 

O imaginário popular frequentemente restringe a atuação do bombeiro ao combate a incêndios estruturais ou florestais. No entanto, o leque operacional diário abrange ocorrências complexas e multifacetadas, como acidentes rodoviários de grande magnitude com desencarceramento de vítimas presas às ferragens, salvamentos aquáticos, resgates em altura, captura e manejo de animais silvestres ou urbanos, além de remoções de fontes iminentes de perigo e o resgate de pessoas confinadas em elevadores.

Para o bombeiro civil Loivo Castoldi Dezordi, a profissão exige muito mais do que destreza mecânica: demanda rigor físico, domínio técnico exímio, disciplina férrea e profunda empatia. A vocação, relata ele, nasceu na infância, fascinado pelo som das sirenes e pelo simbolismo do fardamento: “Sempre foi um sonho. Eu gostava de ver os filmes, as viaturas passando e ouvir o som das sirenes. O fardamento dos bombeiros também me chamava a atenção. Foi uma admiração que começou cedo e acabou se transformando em profissão”, recorda em depoimento ao Jornal Força do Vale.

A preparação diária em uma unidade de resgate não cessa nunca. A rotina no quartel inicia-se invariavelmente com a passagem de plantão, momento em que as equipes recebem o panorama minucioso das ocorrências pregressas e avaliam o status operacional da frota. Seguem-se as inspeções sistêmicas em viaturas, testes rigorosos de ferramentas hidráulicas e equipamentos de respiração autônoma, além de treinamentos práticos, higienização de materiais e manutenções preventivas essenciais para assegurar a prontidão imediata ao toque do alarme.

“A cada atendimento, a cada pessoa que a gente socorre, é gratificante. Quando conseguimos salvar uma casa ou vidas em um acidente de trânsito, isso emociona”, conta Sérgio Baronio, bombeiro comunitário.

 

Preço emocional do juramento de servir

 

O peso do uniforme traz consigo cicatrizes invisíveis. Profissionais com anos de caserna são unânimes ao apontar os atendimentos a acidentes de trânsito envolvendo crianças ou jovens como os episódios mais lacerantes de suas trajetórias.

Loivo Castoldi Dezordi, pai de dois filhos, confessa que as ocorrências fatais com a juventude deixam marcas profundas na memória de qualquer operador: “Lembro de uma ocorrência logo no início da minha trajetória e de outras envolvendo acidentes com mortes. São situações difíceis, a gente se coloca no lugar das famílias. São fatos que permanecem na memória de qualquer bombeiro”, reflete.

Corrobora com o sentimento o 1º sargento Nilton Marcos Gerevini, bombeiro militar com seis anos de corporação após uma longa vivência na Brigada Militar. Natural de Fontoura Xavier e radicado em Arroio do Meio, RS, ele resume a nobreza e a dor do encargo: “É muito difícil, complicado para todos que atendem. Esse tipo de ocorrência é o que mais comove na nossa profissão”, desabafa, acrescentando sobre a essência do trabalho: “É uma profissão nobre. Tem que se dedicar, tem que gostar e fazer o bem ao próximo sem olhar a quem”.

O soldado Lucas Mariani Griesang, atuando desde 2020 e natural de Lajeado, reforça o compromisso vocacional ao pontuar a angústia dos desfechos irreversíveis: “A gente tenta unir uma vocação a uma profissão. Nada melhor do que ser bombeiro para conseguir servir a sociedade”, pondera, antes de descrever o dilema do socorro limite: “A gente está ali lutando pela pessoa, mas sabe que pode chegar ao hospital e não ter mais volta. Isso é difícil”.

Visão idêntica compartilha o subcomandante Gustavo Dias, com uma década de dedicação à segurança pública — metade na Polícia Militar e metade no Corpo de Bombeiros Militar —, atualmente em Encantado, município do Rio Grande do Sul. Para ele, o revés de não conseguir reverter um quadro clínico crítico gera um luto operacional silencioso: “É muito triste não poder ajudar. A gente faz o que pode, mas nem sempre consegue intervir. Esse momento fica marcado para sempre”.

Por sua vez, o bombeiro comunitário Sérgio Baronio, com quase 16 anos de serviços prestados em Anta Gorda, equilibra a balança emocional destacando o poder da intervenção bem-sucedida: “Quando conseguimos salvar uma casa ou vidas em um acidente de trânsito, isso emociona”, observa, valorizando os laços fraternos forjados no quartel entre civis, comunitários e militares.

 

A prevenção como escudo primário

 

No cerne da cultura de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), a prevenção sobressai como o elo mais efetivo para evitar o sofrimento humano. Loivo Castoldi Dezordi ressalta que o trabalho educativo deve permear o lar e as vias públicas. Em residências, a vigilância sobre produtos químicos de limpeza e utensílios cortantes fora do alcance infantil, cabos de panelas voltados para o interior do fogão e recipientes com água aquecida salvam vidas diárias.

Já no trânsito, a conduta cidadã evita catástrofes secundárias: “Se a pessoa presenciar um acidente, deve evitar parar em local inseguro ou reduzir excessivamente a velocidade apenas por curiosidade. O correto é estacionar em um local seguro e acionar os serviços de emergência pelos números 193, 192, 190 ou outros órgãos competentes. O mais importante é não criar novas situações de risco”, adverte o bombeiro.

 

Conquistas institucionais

 

A comemoração do 2 de julho de 2026 trouxe um marco histórico palpável para o interior paulista. O município de Monte Mor deu passos decisivos para inaugurar sua primeira Estação do Corpo de Bombeiros própria, situada na Rua Cruzeiro, nº 917, no bairro Chapéu do Sol. Segundo reportagem do portal da prefeitura,  o projeto, viabilizado após tratativas firmadas com o Governo do Estado de São Paulo dentro do programa de expansão liderado pela Secretaria de Segurança Pública sob o comando de Guilherme Derrite, sela o fim da dependência de cidades circunvizinhas.

O prefeito de Monte Mor, Murilo Rinaldo, celebrou o avanço estrutural: “Com a nova unidade em funcionamento, nosso município não dependerá mais exclusivamente do deslocamento de equipes de cidades vizinhas para o atendimento de ocorrências. Isso reduzirá o tempo de resposta em situações de emergência e fortalecerá a estrutura de proteção e salvamento do município. É uma conquista histórica para a população de Monte Mor”.

O secretário de Defesa Civil, Daniel Honorato, detalhou a capacitação técnica integrada que se avizinha: “Outra etapa importante do processo começa em agosto deste ano, quando terá início a capacitação dos servidores municipais que irão atuar em conjunto com a corporação”, especificando que dez servidores — seis da Guarda Civil Municipal e quatro do Serviço de Atendimento de Emergência — passarão pela Escola Superior de Bombeiros até o encerramento de 2026.

 

CBMDF: 170 anos de bravura

 

O dia 2 de julho de 2026 marcou não apenas as comemorações tradicionais do Dia do Bombeiro Brasileiro, mas também o apogeu de um dos capítulos mais grandiosos da segurança pública nacional: os 170 anos de fundação do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF). Para celebrar a data e eternizar o marco histórico da instituição, o Comandante-Geral do CBMDF, coronel Moisés Alves Barcelos, emitiu uma Ordem do Dia exaltando a evolução da caserna ao longo de quase duas gerações e meia. O documento relembra que, embora os cenários urbanos, os riscos industriais e as tecnologias tenham se transformado drasticamente, a essência do juramento permaneceu intacta: salvar vidas, proteger o patrimônio e preservar o meio ambiente com abnegação.

Conforme ressaltou o Comando-Geral em sua mensagem à tropa e à sociedade, as comemorações prestam tributo aos milhares de bombeiros que antecederam as atuais gerações, enfrentando sinistros e calamidades sob o risco da própria existência. Celebrar o passado, no entanto, veio acompanhado de um balanço contundente de modernização e conquistas recentes alcançadas pela corporação brasiliense:

  • Matriz operacional e frota: o CBMDF reestruturou sua matriz de atendimento de emergências, encurtando o tempo-resposta do socorro à população, além de renovar a frota com viaturas e tecnologias de ponta.
  • Ensino e pesquisa: instituiu-se a Escola Superior de Ciências do Fogo e dos Desastres, elevando o patamar de inovação e pesquisa acadêmica na formação técnica dos operadores.
  • Gestão e bem-estar: houve reestruturação na gestão da saúde de tropas, dependentes e pensionistas, paralelamente a investimentos em concursos públicos para recomposição de efetivos e reposição salarial.

 

Cuidar de quem cuida

 

Um dos pontos de maior destaque na Ordem do Dia do CBMDF foi a consagração institucional da política de Qualidade de Vida no Trabalho. A corporação alcançou o primeiro lugar geral entre todos os órgãos do Governo do Distrito Federal (GDF) no quesito bem-estar corporativo. Para o comando, o número mais impressionante da atuação recente não reside apenas na frota ou nas bases, mas no índice de satisfação aferido junto aos cidadãos atendidos em ocorrências de campo, que atingiu a marca de 94%.

“Nenhuma viatura substitui um profissional motivado. Nenhuma tecnologia supera o valor do compromisso humano. Nenhuma estrutura é mais importante do que as pessoas que diariamente dão vida à missão da nossa Corporação”, salienta o coronel QOBM/Comb. Moisés Alves Barcelos, Comandante-Geral do CBMDF.

Encerrando a mensagem solene alusiva ao 2 de julho, o Comandante-Geral conclamou a tropa da ativa, da reserva, servidores civis e familiares a prosseguirem firmes na missão, abençoando o futuro da corporação com preceitos de coragem e união alicerçados no lema de que servir ao próximo é a mais nobre razão de viver.

 

Nota da ABERGS

 

Enquanto novas bases físicas se expandem, o debate em torno da preservação da memória institucional também ganhou espaço. A Associação dos Bombeiros do Estado do Rio Grande do Sul (ABERGS) manifestou-se criticamente sobre a condução de homenagens públicas recentes por parte de parlamentos estaduais que congratularam de forma generalizada civis e voluntários na data magna de 2 de julho sem menção de destaque aos pioneiros militares de 1856.

A entidade argumenta que o 2 de julho finca raízes na fundação do Corpo Provisório de Bombeiros da Corte por Dom Pedro II, sendo a data tradicional por excelência dos bombeiros militares — cuja regulamentação e histórico se confundem com a própria segurança nacional estruturada. Em nota, a ABERGS pontua que os bombeiros civis contam com o marco da Lei Federal nº 11.901/2009 e comemoração própria em 12 de janeiro, ao passo que os voluntários buscam alusão institucional em 13 de julho (referência a Joinville em 1892). O respeito à diversidade das categorias, defende a associação, não pode anular o rigor e o resgate da gênese histórica de cada farda e corporação que serve ao país.

Assim, transcorrido mais um 2 de julho, o saldo para a sociedade brasileira é a constatação de que a segurança contra incêndios e pânico não se resume a estatísticas frias de equipamentos ou alvarás, mas repousa sobre o suor, a coragem e a vocação inesgotável daqueles que, faça chuva ou faça sol, mantêm-se em alerta permanente em defesa da vida humana.

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