Como você se reconhece na jornada ocupacional? E perante lideranças e colegas, como reconhecem você? Tais questões soam provocativas, mas são de extrema importância. Afinal, passamos boa parte do nosso dia – e da nossa vida – no trabalho e essa ausência pode impactar negativamente a saúde mental.
É o que aponta a tese de doutorado “Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da justiça organizacional”, defendida na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pelo professor de Administração Ricardo Bertoni Pompeu, reunindo depoimentos de 18 trabalhadores, entre 20 e 40 anos, que atuavam em diferentes setores.
A ideia nasceu da escuta de casos de injustiça observados em ambientes de trabalho por seus alunos, o que identificou danos à saúde mental e à vida pessoal dessas pessoas como consequência da falta de reconhecimento.
O pesquisador, entretanto, alerta que ser reconhecido vai além de um pacote de benefícios atraente ou o já tradicional aumento de salário. “Podem parecer justos aos olhos da empresa – e até mesmo do trabalhador –, mas não representam um reconhecimento legítimo, que deveria validar integralmente a experiência humana e pessoal, de maneira a proporcionar autonomia e dignidade”, salienta Pompeu, ao Jornal da Unicamp.
Práticas abusivas, problemas extensivos
Metas inalcançáveis e assédio são apenas a ponta do iceberg do problema, já que há questões denominadas pelo pesquisador como contingencialidade (disponibilidade contínua do profissional para trabalhar) e disjuntividade (apagamento histórico de desempenho desse profissional).
“Contingencialidade é o que a empresa cobra do trabalhador, ou seja, o just in time, a prontidão, disponibilidade e contingência. Já a disjuntividade se refere ao sequestro do passado do trabalhador; não importa seu histórico de vitórias na empresa. O trabalhador perde autonomia pelo apagamento da reputação”, argumenta o docente.
Valorizar é um exercício constante
A pesquisa Carreira dos Sonhos 2025 vai de encontro a essa questão: para 43% do público jovem, 41% da média gestão e 33% da alta liderança a falta de reconhecimento é vista como o maior incômodo com a organização.
Sofia Esteves, fundadora e presidente do Conselho Cia de Talentos/Bettha.com, em artigo para a Exame, destaca que a combinação de comunicação e ações palpáveis pode ser considerada uma das chaves para reconhecer, valorizar e – principalmente – dar visibilidade aos colaboradores.
Entretanto, ela pondera que se trata de um exercício de intencionalidade e coerência, o que também confere uma consistência, ou seja, não existe uma fórmula pronta. Para a especialista, não basta mencionar ao colaborador que ele fez um “bom trabalho”, mas deixar claro o que foi feito.
Na outra ponta, é pertinente reconhecer os pontos necessários de melhorias, feedbacks robustos que ajudem a evoluir dentro da organização, “ampliando repertório de competências e preparando-o para desafios maiores”, avalia a gestora.
Mais que resultado, cada passo conta
Em tempos de discussão sobre a Norma Regulamentadora 1 (NR-1), pensar na saúde mental e no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) é só lidar com documentações ou balizar performances, mas valorizar pessoas, suas histórias, rotinas, ritmos e jornadas. A partir desse pensamento, é possível dizer que o trabalho não se restringe a entrega de resultados, mas em observar e celebrar a caminhada.
Outro estudo, este feito pela Gallup e Workhuman, identificou que trabalhadores se sentem reconhecidos têm 45% menos chances de deixar o emprego em dois anos, já os que recebem feedbacks relevantes, a probabilidade de permanecerem engajados é cinco vezes maior.
“Reconhecer a entrega sem apagar a trajetória permite a uma organização engajar talentos e criar condições para que possam aprender e contribuir sem precisar escolher entre performar e continuar sendo humanas”, conclui Rennan Vilar, Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional, em artigo ao HSM Management.


