Por Rubens M. Volich
No Dia do Trabalho e nas discussões sobre a escala 6×1, uma pergunta decisiva não é apenas quanto trabalhamos, mas como trabalhamos e o que de cada um de nós está implicado nisso.
Não basta reduzir o tempo de trabalho, como se discute a respeito da escala 6×1.
É preciso também considerar a qualidade da experiência vivida não apenas no tempo trabalhado mas também naquele que dedicado ao lazer e à convivência social.
Doenças profissionais e burnout, nesse contexto, não resultam apenas de excessos. Muitas vezes, expressam o empobrecimento do sentido e do valor libidinal do trabalho, quando não é possível a criação, o reconhecimento social ou possibilidade de se reconhecer no que se faz.
Modalidades de trabalho
As formas de precarização crescentes do trabalho agravam esse cenário: reduzem não só a remuneração, mas também a satisfação com o próprio fazer, encurtam o horizonte de tempo e dificultam que o trabalho seja vivido como construção de futuro. Ao mesmo tempo, certas modalidades como o trabalho por aplicativos, a automação e mesmo a sedutora IA tendem a intensificar o controle e a disponibilidade e reduzem a criatividade contribuindo para um esvaziamento simbólico do trabalho.
É nesse terreno que se instalam os funcionamentos operatórios: trabalha-se muito, descansa-se pouco, e, muitas vezes, a experiência do sujeito se empobrece em ambos, terreno fértil para o adoecimento e para a alienação subjetiva e social.
Reduzir o tempo de trabalho é necessário.
Remunerar de forma justa e menos desigual também é imperativo.
Porém é igualmente urgente restituir ao trabalho — e ao tempo livre — sua dimensão de experiência viva para o sujeito.

Foto: arquivo pessoal
Rubens M. Volich
Psicanalista e escritor. Doutor pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot, professor da Esp. em Psicossomática Psicanalítica Sedes Sapientiae.




